EFE/Manuel De Almeida
EFE/Manuel De Almeida

Eduardo dos Santos deixa poder após 38 anos, mas faz o sucessor em Angola

Um dos mais autoritários regimes da África chega ao fim, mas vitória do candidato governista não significa que angolanos conseguirão superar a corrupção que aumentam a desigualdade e impedem o desenvolvimento do país

O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2017 | 05h00

LUANDA - O Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) venceu as eleições gerais angolanas e o candidato governista, João Loureço, será o sucessor de José Eduardo dos Santos, líder histórico do país que esteve 38 anos no poder.

Autoridades eleitorais informaram nesta quinta-feira que o MPLA obteve 64% dos votos, após a conclusão de dois terços da apuração.

A oposição questionou imediatamente os resultados. A União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita) obteve 24% dos votos e a coalizão Convergência Ampla de Salvação de Angola (Casa-CE) ficou com 8%. “É impossível que na Angola de hoje o MPLA ganhe em todas as províncias com uma margem tão grande”, disse Estevão José Kachiungo, líder da Unita. “Vamos contestar estes resultados”, afirmou Cesinanda Xavier, candidata da coligação Casa-CE.

A transição marca o fim de quase quatro décadas de um dos governos mais autoritários da África. Angola tornou-se independente em 1975 e o pai da pátria, Agostinho Neto, líder histórico do MPLA, foi presidente nos primeiros quatro anos. O herói da independência só deixou o palácio presidencial do Futungo quando morreu, em 1979, na mesa de cirurgia de um hospital de Moscou. Desde então, Angola não conhece outro presidente que não seja José Eduardo dos Santos.

Ao longo do tempo, a família Dos Santos tornou-se o Estado de Angola. A chave do poder é o petróleo, cuja produção desde cedo passou a ser controlada pelo palácio presidencial. Sua fachada mais visível é a Sonangol, a petrolífera estatal comandada diretamente pelo presidente. Durante anos, qualquer multinacional que quisesse fazer negócio no país, por lei, tinha de estabelecer com a Sonangol algum tipo de pareceria protegida por acordos de confidencialidade.

Para Dos Santos, o sigilo sempre foi a alma do negócio. Em 2002, ele resolveu oficializar a falta de transparência ao promulgar a Lei do Segredo de Estado, que classifica como secretos os interesses financeiros, econômicos, monetários e comerciais de Angola. Quem divulgar informações inconvenientes é preso. 

A cultura do sigilo fez a corrupção prosperar. Segundo índice da Transparência Internacional, Angola é um dos lugares mais corruptos do mundo, ocupa a 164.ª posição de um total de 176 países – o Brasil está em 79.º lugar. A desigualdade é gritante, também para os padrões brasileiros. Em Luanda, a pequena elite rica, aliada do clã dos Santos, vive encastelada em arranha-céus e shopping centers de luxo, enquanto metade dos 25 milhões de habitantes vive com menos de US$ 3 ao dia e se amontoa em cortiços e favelas. 

Dinheiro. Ninguém sabe ao certo o tamanho da fortuna da família Santos. Segundo a revista Forbes, a filha mais velha, Isabel dos Santos, é a mulher mais rica da África, com uma fortuna avaliada em US$ 3,5 bilhões. Em maio, ela levou para o Festival de Cinema de Cannes um diamante de 404 quilates, estimado em US$ 21 milhões, que deixou a socialite Kim Kardashian de queixo caído. “É o maior que já vi”, disse a celebridade americana no Twitter. 

Ainda em Cannes, seu irmão caçula, Danilo dos Santos, resolveu participar de um leilão de caridade e arrematou um relógio por 500 mil euros. “Ele é muito jovem para ter tanto dinheiro”, disse o apresentador do evento, o ator Will Smith, chocado quando viu o jovem de 23 anos.

A farra dos apaniguados de José Eduardo dos Santos é regada a petróleo. Angola é o maior produtor da África e um dos maiores do mundo. O petróleo é responsável por 45% do PIB e 95% das exportações, segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Uma riqueza para poucos.

Segundo estudo da Universidade Católica de Angola, de 2002 a 2015, US$ 189 bilhões foram enviados do país para o exterior, a maior parte em investimentos obscuros. Segundo reportagem do New York Times desta semana, parte da dinheirama salvou Portugal da insolvência. António Monteiro, ex-chanceler português e presidente do Millennium BCP, maior banco privado de Portugal, garante que o que sustentou o país no auge da crise do euro foi o dinheiro angolano, a maior parte de origem duvidosa. “Em Angola, eles chamam Portugal de máquina de lavar”, disse a eurodeputada Ana Gomes. 

Diante do feudo criado em Luanda, espera-se pouco de João Lourenço, o novo presidente. Santos continuará comandando a máquina do MPLA. Sua filha Isabel seguirá à frente da Sonangol e José Filomeno dos Santos, um de seus filhos, será mantido à frente do Fundo Soberano de Angola, o banco de desenvolvimento angolano. Dos Santos, agora ex-presidente, deixa o cargo, mas não sai de cena. / NYT, AP E REUTERS

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