Educação é antídoto para a radicalização

Todas as evidências indicam que jovens do Oriente Médio desejam estudo, emprego e a chance de aproveitar seus talentos

GORDON BROWN*, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2015 | 02h55

Qualquer pessoa que visita o Oriente Médio nota o fosso que há entre as aspirações ocupacionais, empresariais e educacionais dos jovens e a dura realidade que os priva de um futuro radiante. No Oriente Médio, a metade dos jovens entre 18 e 25 anos está desempregada ou subempregada.

Para agravar a situação, a crise de refugiados deslocou 30 milhões de crianças, 6 milhões somente da Síria, e poucas deverão retornar a seus países nos seus anos escolares. Não surpreende que o Estado Islâmico encontra um terreno fértil para recrutamento nessa população de jovens desafortunados e ressentidos.

Os propagandistas do EI usam a mídia social da maneira que seus predecessores e contemporâneos às vezes utilizam as mesquitas – como um fórum para a radicalização. O grupo posta conteúdo contestando a possibilidade de coexistência entre o Islã e o Ocidente e convocando os jovens à jihad.

Atração. Os vídeos violentos do EI exercem uma atração chocante. Mas o que realmente seduz esses jovens descontentes é o convite para participar de alguma que parece maior do que eles e as sociedades em que vivem. Shiraz Maher, do International Center for the Study of Radicalization (ICSR) do King’s College, em Londres, identifica um sentimento comum entre os recrutados: indignação, atitude de desafio, sentimento de perseguição e recusa ao conformismo”. Do mesmo modo, um estudo recente da Quilliam Foundation conclui que o EI se aproveita do desejo do jovem de participar de alguma coisa que valha a pena: é o apelo utópico da organização que mais atrai os novos recrutas”.

Diante disso, poucas pessoas discordarão do fato de que se trata de uma batalha por corações e mentes que não será vencida apenas por meios militares. O poder das armas pode eliminar os líderes do EI, mas precisamos mais para convencer quase 200 milhões de jovens muçulmanos de que o extremismo é, literalmente, um beco sem saída.

Há muitos exemplos de operações para conter o extremismo: revistas infantis no Paquistão, vídeos destinados a adolescentes no Norte da África, emissoras de rádio no Oriente Médio, livros e publicações de oposição à Al-Qaeda. Elas podem ajudar a expor a realidade da vida do EI – brutal, corrupta e propensa a expurgos internos – e uma delas é chamar a atenção para as deserções que ocorrem. Como ficou exposto em um relatório em 2014: “(o fato da existência de desertores) dilacera a imagem de unidade e determinação que o grupo procura transmitir”.

Mas temos de ser mais ambiciosos para vencer a guerra de ideias, ocupando o espaço cultural que o EI chama de “zona cinzenta” que ele aspira destruir. Um espaço em que muçulmanos e não muçulmanos coexistem, descobrem seus valores compartilhados e cooperam entre si.

Mas o melhor instrumento de longo prazo para conter o extremismo é a educação. Em Jafa, Israel, uma escola administrada pela Church of Scotland ensina as virtudes da tolerância para crianças muçulmanas, judias e cristãs. Em todo o Líbano o currículo escolar comum que defende a diversidade religiosa, incluindo a “recusa a qualquer radicalismo e isolamento sectário ou religioso” – foi adotado para o ensino das crianças cristãs, sunitas e xiitas. O país também introduziu dois turnos de aula nas escolas para acomodar 200 mil crianças refugiadas sírias.

Se o Líbano, destruído pela violência sectária e as divisões religiosas, consegue lutar pela coexistência e dar aos refugiados sírios uma chance de estudar, não há nenhuma razão para outros países da região não seguirem o exemplo.

A opção não poderia ser mais clara. Olhar, sem agir, uma nova geração de jovens muçulmanos adeptos da internet serem inundados com afirmações falsas de que o Islã não pode coexistir com os valores ocidentais. Ou reconhecer que os jovens do Oriente Médio e do mundo muçulmano em geral compartilham as aspirações dos jovens de qualquer parte do mundo.

Todas as evidências indicam que os jovens da região desejam educação, emprego e a chance de aproveitar ao máximo seus talentos. Devemos assumir como propósito para 2016 tornar esse anseio uma realidade.

* GORDON BROWN É EX-PREMIÊ DA GRÃ-BRETANHA / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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