Educação iraquiana é a maior vítima

A Universidade Al Mustansiriya, hoje um museuna capital do Iraque, é considerada a mais antiga do mundo.Inaugurada em 1233, ensinava teologia islâmica, astronomia,direito, matemática e medicina. Orgulho dos moradores de Bagdá,a glória da Al Mustansiriyan faz parte apenas do passado dopaís. O quadro atual do sistema educacional, antes modelo naregião, é mais do que crítico. Se há algo em que governoiraquiano e organizações internacionais concordam a respeito dosefeitos das sanções no país é o fato de a educação ter sido umdos setores mais atingidos pelo embargo. As sanções internacionais contra o Iraque foram decretadaspela ONU após a invasão do Kuwait pelas tropas de Saddam Hussein em 1990. Ao deixar o país vizinho, os iraquianos atearam fogoaos poços de petróleo, causando bilhões de dólares de prejuízo.Desde que as vendas de petróleo pelo Iraque foram retomadas, umterço da renda destina-se a cobrir esses prejuízos. Em dez anos, o Iraque caiu da 91ª para a 126ª posição noÍndice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Adesvalorização da moeda iraquiana, o dinar, fez o salário dosprofessores despencar de US$ 600 para US$ 12 em 15 anos e ascrianças, que antes iam para a escola em transporte gratuito,hoje assistem às aulas muitas vezes sentadas no chão em salasabafadas (em Bagdá, a temperatura média durante o dia é de 48graus). No campo, as famílias já não enviam os filhos para o colégio,pois precisam de sua força de trabalho e há milhares de jovensanalfabetos no país - crianças que pararam de estudar em 1991,quando começou a Guerra do Golfo, e nunca mais voltaram. Sistematicamente, a cúpula do regime de Saddam culpa o embargopelo estado de conservação das escolas e pelos demais problemassociais e econômicos do país. Apesar de as sanções terem sidoflexibilizadas em maio, as novas regras ainda não foram postasem prática e só serão suspensas quando o Iraque provar que nãopossui armas de destruição em massa e mísseis de longo alcance.Enquanto isso, muitos prédios que abrigam escolas e institutosde pesquisa, afetados pelos bombardeios americanos, continuamsem manutenção. Segundo o Ministério da Educação, 30 contratos para compra demateriais para reforma já foram enviados ao programa Petróleopor Alimentos, no valor de US$ 50,27 milhões. Desde total, US$24,6 milhões foram aprovados e somente US$ 3,7 milhões (7,4%),entregues. "Temos muitos problemas para conseguir carros,impressoras e até instrumentos musicais. Esperamos três anospara comprar um violão e, mesmo assim, pagamos muito mais queseu valor real", conta o ministro da Educação, Fahed Salem AlShagra. "Qualquer um pode ver a diferença entre como são as escolashoje e como poderiam ser. Temos de explicar a finalidade dequalquer coisa para as Nações Unidas", reclama Al Shagra. Ogoverno acusa a organização de ser manipulada pelos EstadosUnidos, a ponto de bloquear a importação de lápis somente porsuspeitar que o Iraque poderia usar o carbono do grafite parafins militares, segundo o ministro. Lápis e centenas de outros suprimentos não chegam ao Iraqueporque estão numa lista de 332 páginas de produtos de "usoduplo", embargados pelas Nações Unidas por teremcaracterísticas que podem vir a ser usadas para fins militaresno país. Cerca de US$ 5,2 bilhões em bens já foram bloqueadospelo Conselho de Segurança da ONU. "Somos um dos países maisricos da região e não podemos usar nossa fortuna para salvar opovo por causa das sanções", disse o Ministro de EnsinoSuperior do Iraque e Pesquisa Científica, Humam AbdulkhalikAbdul-Ghafoor. "Não precisamos de dinheiro, precisamos decooperação internacional." Na escola primária Bissan, subúrbio de Bagdá, o problema não éapenas com o que escrever. O prédio de dois andares lembra umedifício abandonado. As salas não tem nada além um quadro negro,carteiras velhas e uma foto de Saddam Hussein. Os vidros estãoquebrados, os ventiladores não funcionam por falta de reposiçãode peças e as porta não fecham. Ali estudam diariamente 500meninas com idade entre 6 e 12 anos - o ensino primário noIraque é obrigatório e separado por sexo. "Precisamos de móveis, de água encanada, instalaçõessanitárias, livros e papel", explica Karina Salah, professorahá 17 anos na escola. Ela lembra que a situação era melhor nofinal dos anos 80. "Hoje as crianças chegam mal alimentadas oufaltam muitas aulas." As 19 universidades iraquianas - 11 públicas e 8 privadas -também sofrem com o isolamento do país. O intercâmbio deprofessores e estudantes com instituições européias acabou, oslaboratórios estão ultrapassados e as bibliotecas,desatualizadas. Livros de química, física, matemática e atélingüística estão na lista de produtos de uso dual submetidos àssanções. O norte do país, nas zonas de exclusão protegidas pelosEstados Unidos e Inglaterra e onde habitam os curdos, a situaçãoé um pouco diferente. Com o dinheiro do programa Petróleo porAlimentos, a Unesco (Organização das Nações Unidas para aEducação, a Ciência e a Cultura) conseguiu reformar mais de cemescolas. Para projetos no centro e sul do país, no entanto, estaverba não pode ser utilizada. Atualmente, são US$ 135 milhõesrestritos ao norte. Apesar disso, a Unesco está construindo uma escola modelo nocentro de Bagdá, para o ensino secundário de 700 meninas, comverba da própria agência. O custo da construção está estimado emUS$ 800 mil e o prédio deve ser inaugurado em 2003. Tirardinheiro do bolso é a única garantia que a Unesco tem de quenovas crianças poderão estudar.

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