Efeito retardado

Há quase um mês, no norte da Nigéria, o grupo islâmico Boko Haram sequestrou entre 200 e 300 estudantes, mas somente hoje o mundo inteiro clama seu horror diante dessa infâmia. Agora, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França decidiram enviar comandos ao país africano.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2014 | 02h01

Esse "efeito retardado" é explicável. Podemos imaginar uma reação de estupor, um estado de choque diante de semelhante ato. E, por outro lado, faltavam informações. Por que os terroristas do Boko Haram capturaram as colegiais? O que pretendem fazer com elas? Estas perguntas foram respondidas na segunda-feira e a resposta chega a pasmar. O próprio líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, explicou o seu crime.

Vimos na tela da TV um "palhaço trágico", coçando a cabeça e a barba e, entre risadas sinistras, anunciar que essas jovens seriam dadas em casamento e algumas seriam vendidas nos mercados "como escravas". No dia seguinte, a mesma seita sanguinária massacrou camponeses no nordeste da Nigéria e 90 pessoas na capital Abuja.

Será possível interpretar a estratégia do Boko Haram? É difícil. A seita, que diz representar um Islã intransigente, age no norte da Nigéria, região pobre e muçulmana, enquanto o sul, muito mais rico, registra grande número de cristãos. Ora, bizarramente, quando a seita Boko Haram empreende uma espécie de guerra santa, mata ou tortura os muçulmanos do norte nigeriano, ou seja, sua clientela, as mesmas pessoas que diz defender.

Esse paradoxo é um desafio ao bom senso e contribui para aumentar o terror que o Boko Haram inspira: o grupo aplica uma estratégia que se opõe totalmente à lógica, à racionalidade.

Tal incoerência lança sobre o Boko Haram uma sombra da morte. Reconheçamos, entretanto, que a seita insana é rigorosamente fiel ao nome que se atribuiu: Boko Haram significa "A educação moderna é um pecado".

Educação moderna significa educação ocidental. Não é por acaso que os monstruosos imbecis do Boko Haram atacaram estudantes na escola.

Elas cometiam um duplo pecado, aos olhos delirantes do Boko Haram: não só aprendiam o alfabeto, o cálculo, talvez até filosofia, como ainda eram "meninas", o que já é um pecado repugnante. Há muito tempo, no Paquistão e no Afeganistão, os "loucos de Deus" destroem escolas femininas e assassinam as estudantes.

A Nigéria é um país muito populoso (170 milhões de habitantes) e, ao mesmo tempo, rico (a primeira economia da África, à frente da África do Sul). A seita, porém, prospera na parte norte.

Exemplo. Costuma-se explicar esse recurso ao crime em massa pela pobreza e a injustiça social. Hoje, outra notícia vinda do outro lado da terra, da Ásia, mostra como é restritiva a explicação desses horrores unicamente pela pobreza.

O sultanato de Brunei é um minúsculo território de 400 mil habitantes ao norte de Bornéu. "Miséria, não sabemos o que é", dizem por lá. O país é uma esponja de petróleo, tanto que o seu líder, o sultão Hassanal Bolkiah, tem uma fortuna de US$ 20 bilhões e seus súditos têm o quinto PIB do mundo.

Contudo, em 1.º de maio, a sharia começou a ser aplicada aos habitantes de Brunei. Se o cidadão não se comportar durante as orações ou se tiver filhos fora do casamento, irá para a cadeia. A mão de um ladrão será amputada. E, no fim de 2015, será introduzida a lapidação (a morte a pedradas) para os crimes de sodomia ou adultério.

Os especialistas em ciências políticas coçam a cabeça para entender como pôde ser aprovada a sharia nesse pequeno paraíso terrestre. As explicações nos deixam perplexos. Atribui-se a decisão à idade do sultão. Observa-se que, envelhecendo, ele está se mostrando cada vez mais conservador. Há alguns meses, ele declarou guerra à internet.

Que idade ele tem? Sessenta e sete anos. Conclusão: em Bornéu, a senilidade começa mais cedo do que em outras partes do mundo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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