Efemérides mutáveis

Quando no dia 24 de fevereiro de 2008 Raúl Castro se instalou finalmente na cátedra presidencial, não imaginava que a comemoração de sua ascensão ao poder seria relegada para o segundo plano, 24 meses mais tarde.

YOANI SÁNCHEZ, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

O dia da posse do general não foi escolhido ao acaso, mas foi determinado de acordo com o calendário da Independência, precisamente o mesmo em que, 113 anos antes, recomeçara nossa guerra de facão em meio à selva.

Desta vez, em lugar de ocorrer no povoado de Baire, no leste do país, tudo se passou nas confortáveis poltronas do Palácio das Convenções, na capital. Naquela sala, não se ouviu o som dos aços se entrechocando, mas o previsível coro de centenas de aplausos coordenados.

Também não houve surpresas, todos sabíamos que a chefia do Conselho de Estado e do Conselho de Ministros obedeceria à herança do sangue, seria outorgada ao homem que tinha o mesmo sobrenome do comandante-chefe. O feudo insular trocara de mãos.

Entretanto, as ações minuciosamente programadas costumam apresentar um intempestivo detalhe, um cacho desobediente, que se recusa a passar pelo "politicamente correto".

À semana em que o irmãozinho comemorava seus dois anos no poder, a realidade e o almanaque reservaram a pior das brincadeiras. Em 23 de fevereiro de 2010, morria, depois de 85 dias de greve de fome, o pedreiro Orlando Zapata Tamayo, que se negara a alimentar-se reivindicando melhorias nas penitenciárias e um tratamento menos degradante. Vinte e quatro horas mais tarde, o país estava tomado pelas obscuras sombras da polícia política.

Em vez de dedicar este dia a uma análise de sua breve presidência, Raúl Castro mandou prender mais de cem ativistas em todo o território nacional e postou soldados à paisana nas ruas e nos arredores das casas de dissidentes, jornalistas independentes e blogueiros conhecidos por suas críticas. Caíram sobre nós as trevas das prisões arbitrárias, dos calabouços empesteados de urina, das ameaças pronunciadas entre as paredes de uma delegacia de polícia.

Novos métodos para calar os inconformistas foram postos à prova. Já não eram ruidosos e públicos, como no mandato de Fidel Castro, agora não deixavam rastros legais, não havia atas assinadas, os agentes já não declaravam seus nomes verdadeiros e os golpes eram dados com a precisão de quem não quer deixar marcas.

Como em um pesadelo recorrente, o mundo deu uma lenta volta ao redor do Sol e estamos de novo em fevereiro, neste fevereiro de ascensão e queda. Desde o início do mês, a vigilância foi redobrada, e há mais de três semanas é impossível comprar uma passagem de avião, trem ou ônibus para as proximidades do povoado onde está enterrado Zapata Tamayo.

O número de sombras à espreita em torno de quem poderia organizar uma vigília em memória daquele que converteu o seu corpo em território de protesto, aumentou. Em meio a tudo isto, poucos se deram conta de que também Raúl Castro está fazendo um novo aniversário como presidente do país.

A lembrança da morte silenciou o estardalhaço da sucessão, a imagem de um humilde ataúde amargou o gosto da coroa, aqui envolta em pano verde-oliva.

Três anos depois de se tornar o rosto público do poder em Cuba, o outrora ministro das Forças Armadas depara-se com um cenário mais difícil do que os conflitos que administrou certa vez na Sierra Maestra.

Apesar da entrega de terras em usufruto, o país tem ainda dezenas de milhares de hectares improdutivos e o maior déficit de habitações de sua história. A moeda com que é pago o salário dos trabalhadores carece de valor real, e as duas áreas de maior prestígio, a educação e a saúde, passam por uma verdadeira crise. Observa-se um índice demográfico em retrocesso e uma crescente emigração, enquanto a corrupção degrada todas as esferas da sociedade. Os trabalhadores autônomos tentam abrir caminho apesar dos altos impostos, da ausência de um mercado atacadista e da falta de crédito bancário.

O Partido Comunista, o único permitido pela lei, anunciou para abril seu 6.º congresso, depois de mais de 13 anos sem reunir-se. O projeto de diretrizes propostas para a grande ocasião foi discutido nas câmaras municipais, onde os mesmo que fazem críticas ferozes - na intimidade de suas famílias - aprovam por unanimidade os 291 pontos do documento.

Com os fantasmas das promessas não cumpridas e dos resultados adiados, Raúl Castro se dá conta de um espectro de rosto amulatado e corpo descarnado que o ronda. Nestes dias, com o balanço crítico do seu breve mandato, deve ter percebido também que lhe roubaram sua comemoração. Um homem que se negou a comer roubou-lhe esta semana, na qual todos deveriam lembrar de sua posse como General Presidente. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É JORNALISTA CUBANA E AUTORA DO BLOG GENERACIÓN Y. EM 2008, RECEBEU O PRÊMIO ORTEGA Y GASSET DE JORNALISMO

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