AFP PHOTO / DOMINIQUE FAGET
AFP PHOTO / DOMINIQUE FAGET

Eficácia dos serviços de inteligência é questionada após atentados em Paris

Para ex-chefe do serviço de inteligência e segurança francês, há um problema grande nas fronteiras do espaço de Schengen

O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2015 | 11h47

PARIS - Como ocorre depois de cada atentado terrorista bem-sucedido, o massacre de 13 de novembro levanta questionamentos sobre as eventuais “falhas” nos sistemas antiterroristas franceses e europeus.

No momento atual das investigações, o caso mais grave parece ser o de Samy Aminour, francês de 28 anos, suspeito de viajar para o Iêmen, acusado em outubro de 2012 de “associação com delinquentes terroristas” e colocado sob controle policial.

Mesmo assim, as autoridades não conseguiram impedi-lo de chegar à “Terra do Jihad” sírio. A informação abriu espaço para um mandado de captura internacional. Contudo, ele ainda conseguiu voltar para a França e participar dos ataques realizados na sexta-feira em Paris.

“Temos um problema de controle das fronteiras no espaço de Schengen, e um problema grande”, afirma Alain Chouet, ex-chefe do serviço de inteligência e segurança na DGSE (serviço francês de inteligência exterior). “Sua chegada deveria ter provocado um alerta vermelho. Mas esses garotos controlam muito bem as técnicas de entrada e saída de Schengen, por terem praticado muito todas elas.”

“Se ele foi cuidadoso de não voltar para a fronteira francesa, ninguém viu. Se ele foi através da Bélgica, por exemplo, em um voo de baixo custo para Charleroi… Vá a Charleroi, e veja os controles”, destaca.

O outro terrorista que estava na casa de shows Bataclan, Omar Ismail Mostefai, atrai desde 2010 a atenção dos serviços franceses, que fizeram uma ficha suja S (“segurança do Estado”), e o detectaram duas vezes em Paris por pertencer ao movimento jihadista.

A polícia turca “informou a polícia francesa em dezembro de 2014 e em janeiro de 2015” a respeito de Mostefai, que entrou na Turquia em 2013 para, em seguida, rumar para a Síria. “Nunca tivemos uma resposta da França”, afirmou na segunda-feira uma autoridade turca.

Outros membros dos centros de comando, instalados na Bélgica, eram conhecidos da polícia belga. “Entenda que, se os belgas não nos avisam, não podemos fazer nada”, disse uma fonte policial.

Todos esses indícios deveriam ter levado os investigadores na França e na Bélgica a criar uma ação contra os extremistas antes de atacarem Paris.

“Há três hipóteses”, explica um especialista do contraterrorismo na DGSE, que pediu para não ser identificado. “Se ninguém viu nada, é um grande problema; ou alguém viu algo mas não entendeu, o que também é um problema; ou se viram coisas e a equipe ainda foi capaz de tomar algumas medidas.”

“Nos três casos é algo muito irritante. Isso significa que não foi um problema de informação, ou na cadeia de comando dos serviços. A situação é agravada pelo fato de que todos esses acontecimentos foram na Bélgica”, ressalta. 

"Vários garotos eram conhecidos em Bruxelas. Alguém falhou”, diz o especialista. 

EUA. A Agência Central de Inteligência (CIA) avalia que o EI provavelmente prepara outras operações semelhantes aos atentados cometidos em Paris na sexta-feira e alertou sobre "falhas" na vigilância dos extremistas por precauções sobre a proteção da privacidade.

"Penso que esta não é a única operação que o grupo Estado Islâmico" estava preparando, disse o diretor da CIA, John Brennan. "Certamente não considero" estes ataques de Paris "um acontecimento isolado", acrescentou o funcionário ao falar em um círculo de reflexão em Washington.

O grupo "não se contenta em limitar suas atividades mortais no Iraque e na Síria e a desenvolver bases locais no Oriente Médio, Ásia e no sudeste da África, mas tem um programa de operações no exterior que aplica agora com efeitos letais", declarou Brennan.

"A segurança operacional" das redes extremistas é "bastante forte", explicou Brennan, lamentando que os serviços de segurança careçam de meios para acompanhar as comunicações dos extremistas. Segundo ele, isto é principalmente consequência das revelações de Edward Snowden sobre os programas de vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) americana.

"Espero" que estes ataques favoreçam "uma tomada de consciência" sobre estes temas, "particularmente nas regiões da Europa onde se gerou uma imagem negativa" destas técnicas de escuta e vigilância, afirmou. "É hora de perguntar (...) se não ocorreram falhas, intencionalmente ou não, na capacidade dos serviços de inteligência e de segurança para proteger as pessoas", arriscou.

As revelações de Snowden sobre o alcance da intervenção das comunicações pela NSA provocaram uma onda de protestos em todo o mundo. Nos Estados Unidos, o Congresso aprovou em seguida uma lei propondo o fim do armazenamento de metadados das ligações telefônicas de americanos por parte da NSA, que agora é confiado a empresas privadas. /AFP

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