Egípcios desafiam toque de recolher e militares nas ruas

Governo estendeu toque de recolher a todo o país; sede do partido do presidente foi incendiada.

Tariq Saleh, BBC

28 de janeiro de 2011 | 18h27

Milhares de manifestantes egípcios, que realizam protestos contra o governo do presidente Hosni Mubarak, estão desafiando um toque de recolher imposto no país nesta sexta-feira, apesar da presença de militares nas ruas.

Inicialmente aplicado em três cidades (Cairo, Suez e Alexandria), a medida foi estendida a todo o território egípcio no início da noite (hora local, à tarde no Brasil), refletindo uma intensificação nos protestos durante o dia. Mais cedo, serviços de internet e telefonia celular foram aparentemente bloqueados no país.

No Cairo, a capital egípcia, manifestantes atearam fogo na sede do Partido Nacional Democrático, mesma agremiação de Mubarak, e cercaram os prédios do Ministério das Relações Exteriores e da TV estatal.

A emissora anunciou que o toque de recolher vigoraria entre as 18h desta sexta-feira e as 7h do sábado e que militares trabalhariam em conjunto com os policiais para reforçar a ordem.

Espera-se que Mubarak, que está no poder desde 1981 e não foi visto em público desde o início das manifestações, faça um pronunciamento nas próximas horas.

Militares

A TV egípcia transmitiu a chegada ao Cairo de tropas militares e de blindados. Ao passar pelos manifestantes, muitos soldados acenavam para a multidão.

As manifestações desta sexta-feira - de proporção sem precedentes na história do Egito - se seguem a três dias de protestos, em que ao menos oito pessoas morreram e mais de mil foram presas.

As ações foram inspiradas em uma onda de protestos populares que culminou com a queda do presidente da Tunísia, Zine Al-Abidine Ben Ali, há duas semanas.

No Cairo, policiais entraram em confronto com milhares de manifestantes nas ruas, usando bombas de gás lacrimogêneo e canhões d'água para dispersar a multidão, que respondeu atirando pedras, queimando pneus e montando barricadas.

A BBC Brasil acompanhou alguns embates e viu policiais à paisana baterem em mulheres que caminhavam perto da multidão.

Conforme a noite avançava, helicópteros sobrevoavam a capital e tiros eram ouvidos.

Nesta sexta-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, exortou as autoridades egípcias a permitir protestos pacíficos. "Estamos profundamente preocupados com o uso da violência pela polícia e força de seguranças egípcias contra manifestantes", disse Hillary.

"Ao mesmo tempo, os manifestantes devem evitar a violência e se expressar de forma pacífica", afirmou. O Egito é um dos mais importantes aliados dos Estados Unidos no mundo árabe.

Outras cidades

Em Suez, um grupo invadiu uma delegacia de polícia, roubou armas e ateou fogo ao prédio. Choques também foram registrados nas cidades de Alexandria, Mansoura e Assuã, assim como Minya, Assiut, Al-Arish e na Península do Sinai.

Locais onde têm ocorrido os protestos no Egito

Há relatos de que centenas de líderes da oposição foram presos durante a madrugada. Ao menos dez pertenceriam à organização Irmandade Islâmica, banida pelo governo.

Outros relatos dão conta de que o líder da oposição e Nobel da Paz Mohamed ElBaradei estaria sendo mantido em prisão domiciliar, mas a versão não foi confirmada oficialmente.

ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), chegou ao Cairo na quinta-feira para se juntar às manifestações.

Comunicações

Na noite de quinta-feira, sites como Facebook ou Twitter começaram a apresentar problemas no país, assim como o envio de mensagens por celular.

A operadora de celulares Vodafone Egypt disse em nota: "Todas as operadores de celular no Egito foram instruídas a suspender seus serviços em áreas selecionadas. De acordo com a legislação egípcia, as autoridades têm o direito de emitir tal ordem e nós somos obrigados a cumpri-la".

Ao menos oito pessoas morreram e mais de mil foram presas nos protestos

O governo do Egito quase não dá espaço a posições contrárias à oficial, e manifestações da oposição são frequentemente proibidas.

Entretanto, na quinta-feira, Safwat El-Sherif, secretário-geral do Partido Nacional Democrático, disse que o PND "está pronto para o diálogo com o público, a juventude e os partidos legais".

"Mas a democracia tem suas regras e seus processos. A minoria não pode forçar seu desejo sobre a maioria".

Em nota sobre as manifestações em curso no Egito, na Tunísia e no Iêmen, outro país árabe que tem vivenciado turbulências, o governo brasileiro expressou sua "expectativa de que as nações amigas encontrarão o caminho de uma evolução política capaz de atender às aspirações da população em ambiente pacífico e sem interferências externas, de modo a dar suporte ao desenvolvimento econômico e social em curso".BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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