Egípcios protestam contra decretos que deram mais poder ao presidente

Dezenas de milhares de egípcios ocuparam ontem a Praça Tahrir, epicentro dos protestos que derrubaram a ditadura de Hosni Mubarak, em uma manifestação contra o presidente Mohamed Morsi, que, na quinta-feira, emitiu decretos que aumentaram seu poder. Escritórios do Partido Justiça e Liberdade (PJL), braço político da Irmandade Muçulmana, ao qual Morsi pertence, foram incendiados. Houve confronto entre ativistas seculares e islâmicos.

CAIRO, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h07

Apesar de atos favoráveis ao presidente terem ocorrido em frente ao palácio presidencial, na Praça Tahrir, os manifestantes gritaram palavras de ordem contra Morsi e o compararam a Mubarak. "Saia, Saia! Morsi é Mubarak!", gritavam os manifestantes. "A revolução está em todo lugar."

Sarah Kalil, professora da Universidade do Cairo que foi ao protesto, acusou a Irmandade Muçulmana de tentar usurpar a revolução. "Ele é louco se pensa que voltaremos ao regime de um homem só. A decisão só mostra como ele é inseguro e fraco. Se o slogan da Irmandade é 'O Islã é a solução', o nosso é 'A submissão não é a solução'", disse.

Diante do Parlamento, na manifestação convocada pela Irmandade Muçulmana, os gritos eram de apoio ao presidente. "Deus humilhará aqueles que atacam o nosso presidente", disse o clérigo ultraconservador Mohamed Abdel-Maksoud. "Deus humilhará aquele que insultar o sultão."

Morsi, o primeiro presidente democraticamente eleito da história do Egito, deu ontem as primeiras declarações públicas depois dos decretos que aumentaram seu poder. "Estamos caminhando adiante, com a vontade de Deus, e nada ficará no nosso caminho", disse Morsi após as preces de sexta-feira. "Eu cumpro minhas obrigações diante de Deus e do país e tomo decisões depois de consultar a todos. A vitória não vem sem um plano claro e é isso que eu tenho."

O presidente disse ainda que, apesar das novas atribuições, não tomará partido de ninguém. "Estou com todos os egípcios. Não tomarei partido contra nenhum filho do Egito", disse. "A oposição não me preocupa, mas tem de ser verdadeira e forte."

Sedes regionais do PJL foram incendiadas em Alexandria, Porto Said, Suez e Ismaliya. Em Alexandria, houve episódios violentos entre salafistas e seculares.

As novas atribuições de Morsi provocaram protestos de líderes da oposição. O ex-candidato à presidência Abdel Moneim Aboul Fotouh, que rompeu com a Irmandade Muçulmana e adotou posições mais liberais, criticou o rival. "Adotar uma demanda da revolução dentro de um pacote de medidas autocráticas é um retrocesso", escreveu ele em sua conta no Twitter.

De acordo com os decretos de Morsi, as decisões tomadas por ele após a posse estão livres de revogação judicial. Membros do painel que elabora a Constituição, além da Câmara Alta do Parlamento, também foram considerados imunes à Justiça, ainda controlada por aliados dos militares que governaram o país por seis décadas. Ele também ordenou que acusados de matar manifestantes em 2011 sejam julgados novamente, como queriam setores da sociedade que derrubaram Mubarak. / AP e NYT

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