Egípcios protestam para 'recuperar' sua revolução

Milhares de egípcios lotaram na terça-feira a praça Tahrir, no Cairo, para tentar reassumir os rumos da revolução de 2011, já que eles consideram que elementos do antigo regime continuam no poder.

REUTERS

05 de junho de 2012 | 20h19

O estopim da indignação foi a condenação, no sábado, do ex-presidente Hosni Mubarak à prisão perpétua, por causa da morte de manifestantes durante a rebelião popular que o derrubou no ano passado, além da absolvição de vários ex-funcionários de alto escalão por falta de provas. Os manifestantes queriam a pena de morte para Mubarak, e muitos temem que ele acabe sendo absolvido em segunda instância.

A convocação do protesto, quase 16 meses após a queda de Mubarak, reflete também a insatisfação dos revolucionários com o segundo turno da eleição presidencial, em 16 e 17 de junho, que irá contrapor um candidato ligado ao antigo regime, Ahmed Shafiq, a um conservador islâmico, Mohamed Mursi.

"Não a Mursi, não a Shafiq, a revolução está pela metade", dizia um cartaz carregado por um jovem na praça Tahrir, propondo um boicote à votação. Centenas de pessoas já estavam na manhã de terça-feira na praça Tahrir, epicentro da rebelião do ano passado, e palco de várias outras manifestações na tensa transição política que se seguiu.

Grupos e partidos liberais ou centristas querem que o segundo turno seja suspenso até que o Parlamento aprove uma lei que proibiria Shafiq de concorrer, por causa da sua ligação com Mubarak.

O reformista Mohamed el Baradei, que desistiu de disputar a presidência meses atrás, disse que o Egito não deveria realizar uma eleição até uma nova Constituição estar em vigor. Grupos políticos continuam travando uma acirrada discussão com as Forças Armadas a respeito de quem deveria redigir a Carta.

"Não estamos prontos para eleições. O povo está dividido", disse El Baradei, cercado por centenas de simpatizantes no aeroporto do Cairo. "O ambiente geral que vejo hoje não permite eleições sem uma Constituição."

A Irmandade Muçulmana, partido de Mursi, com chances de chegar ao poder após décadas sofrendo repressão por parte de Mubarak, disse que vai participar do protesto, mas não propôs o adiamento da eleição.

Para esse grupo, a principal reivindicação é um novo julgamento aos acusados pela morte de manifestantes, um processo para julgar Shafiq, que foi o último premiê de Mubarak, e a rejeição de qualquer tentativa de "reproduzir o regime anterior".

Os manifestantes são unânimes em dizer que Shafiq é um "feloul" (remanescente da era Mubarak) e que deve ser barrado na presidência, mas se dividem sobre se Mursi é ou não um candidato da revolução, como ele diz ser.

"Nem Shafiq nem Mursi são nada bons. Eles precisam se retirar da corrida presidencial. Um é do antigo regime, e o outro não tem experiência política e tem um grupo com agenda islâmica. Ambos os homens vão destruir este país", disse o manifestante Arafa Mohamed, de 21 anos, cercado por companheiros que agitavam bandeiras.

Muitos desconfiam da Irmandade por renegar sua promessa inicial de não disputar a presidência, e dizem que o grupo vem tentando abarcar mais poderes, aproveitando da ampla bancada formada na eleição parlamentar de meses atrás.

Negociações entre Mursi e dois candidatos derrotados, o esquerdista Hamdeen Sabahy e o ex-membro da Irmandade Abdel Moneim Abol Fotouh, respectivamente terceiro e quarto colocados no primeiro turno de maio, ainda não resultaram num apoio explícito a Mursi.

Sabahy e Abol Fotouh, que juntos obtiveram cerca de 40 por cento dos votos, propuseram a anulação do pleito e a formação de um conselho presidencial, que provavelmente os incluiria. A Irmandade diz que isso seria inconstitucional, mas Mursi declarou-se disposto a nomear vices de fora do seu partido.

Já os partidários de Shafiq se mantêm mais discretos. Muitos dos seus eleitores são egípcios que ficaram satisfeitos com a queda de Mubarak, mas agora estão desesperados pela retomada da ordem e por uma recuperação econômica.

Shafiq também teve votos de cristãos e liberais temerosos de que um governo islâmico cancele liberdades sociais e construa um Estado islâmico. Mursi garante que, no seu eventual governo, as pessoas terão liberdade de opinião e poderão se vestir como quiserem.

Um membro da campanha de Shafiq disse que haverá uma carreta de apoio ao candidato num bairro do Cairo.

(Por Shaimaa Fayed e Tamim Elyan)

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