Amr Abdallah Dalsh/Reuters
Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Egípcios rejeitam oferta e enfrentam a polícia no Cairo

Mortes em confrontos no país sobem para 38; ativistas querem que militares deixem o poder

Lourival Sant’Anna, enviado especial

23 de novembro de 2011 | 22h09

CAIRO - Os confrontos entre a polícia e manifestantes no Cairo e em outras partes do Egito continuaram nesta quarta-feira, 22, elevando a 38 o número de mortos, apesar do compromisso feito na véspera pelo chefe da junta militar, marechal Mohamed Hussein Tantawi, de realizar a eleição presidencial até o fim de junho. Os manifestantes, assim como os partidos, exigem que o Conselho Supremo das Forças Armadas afaste-se de imediato do poder, permitindo que um "gabinete de salvação nacional" assuma o governo efetivamente, livre da tutela militar.

 

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Depois de se manter afastada por dois dias, concentrando seus esforços em proteger o prédio do Ministério do Interior, a polícia tentou ontem dispersar com bombas de gás lacrimogêneo os milhares de manifestantes que ocupam a Praça Tahrir, o epicentro da revolução que derrubou em fevereiro o ditador Hosni Mubarak.

 

Vários manifestantes intoxicados foram levados aos hospitais em ambulâncias ou em motocicletas para as tendas de socorro médico improvisadas no local. Mas a maioria não saiu da praça, onde muitos se preparavam para passar outra noite em vigília

 

"Não vou sair daqui até que um civil assuma o governo e todos os candidatos, de Hazem Abu Ismail (líder islâmico) até Bosayna Kamel (apresentadora de TV), possam concorrer livremente à presidência do país", disse Mazen Ashur, um desempregado de 30 anos, com um curativo tapando o olho direito, segundo ele, ferido há dois dias por um disparo de espingarda de chumbo, feito por um policial. "A polícia está nos tratando como inimigos." Os policiais usam balas de borracha e de chumbo e há relatos, incluindo de médicos, de vários mortos e feridos por armas de fogo.

 

O estudante de engenharia Mahmud Mohamed, de 23 anos, estava na linha de frente no embate com a polícia. "Eles chegaram sem dizer nada, já começaram a nos atacar sem parar", disse Mohamed. "Não vou sair desta praça enquanto não houver um governo e um presidente civis", repetiu ele, refletindo o humor da maioria ali presente.

 

Assim como em fevereiro, a combinação de repressão policial e concessões insuficientes feitas na época por Mubarak e agora por Tantawi, ex-ministro da Defesa, só tem enfurecido os manifestantes e aumentado seu número - na noite de terça-feira, ultrapassaram 100 mil.

 

Em outra concessão, a junta militar anunciou ontem a libertação de 312 manifestantes detidos desde sexta-feira. Calcula-se que cerca de 12 mil pessoas tenham sido presas por motivos políticos após a queda de Mubarak, em fevereiro. Na quarta mesmo, a cineasta americana de origem egípcia Jehan Nojaim, que fazia um documentário sobre a revolução, foi presa, segundo informou à Associated Press seu coprodutor, Karim Amer.

 

A junta militar afirmou também ter ordenado que promotores civis assumam um inquérito iniciado por militares sobre a morte de 27 pessoas, na maioria cristãos, em um protesto em 9 de outubro, justamente contra a perseguição a essa minoria religiosa no Egito, que representa 10% da população. Militares são acusados de envolvimento nas mortes.

 

Mas nada parece aplacar os egípcios agora, a não ser o afastamento dos militares do poder. "O pronunciamento (de Tantawi) não acrescentou muito à situação", disse ao Estado Nadim Elias, dirigente do Partido Egípcio da Liberdade, um dos criados após a queda de Mubarak. "O mais importante é quem estará a cargo do gabinete de salvação nacional." Elias apoia o nome de Mohamed ElBaradei, ex-diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica. 

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