AFP PHOTO / DOMINIQUE FAGET
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Egípcios usam Twitter para afirmar que ‘muçulmanos não são terroristas’

Internautas se dividiam entre os que declaravam o Islã como a ‘religião do amor, da tolerância, da paz e do bem’, e os que acusavam a Europa e os EUA de serem os verdadeiros terroristas

O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2015 | 13h21

CAIRO - A hashtag "Muçulmanos não são terroristas" se transformou no domingo em uma das mais comentadas entre os egípcios no Twitter após os atentados de sexta-feira em Paris, que deixaram 129 mortos e 352 feridos.

Frases como "O Islã é a religião do amor, da tolerância, da paz e do bem" acompanhavam as postagens de outros internautas, que afirmavam que os jihadistas não eram muçulmanos e acusavam a Europa e os EUA de serem os verdadeiros terroristas.

"Por que os muçulmanos são os terroristas, quando, em primeiro lugar, foram vocês que criaram o terrorismo ocupando nossa terra, matando milhões e fazendo com que ainda soframos por isso?", questionava a usuária identificada como Nadia Shokry, um dos muitos internautas que criticavam o Ocidente usando a hashtag.

Para o especialista em Psicologia Hany Henry, a reação é uma resposta natural ao uso do termo "terrorismo islâmico" por parte da imprensa na cobertura dos atentados de Paris, cuja autoria foi reivindicada pelo grupo jihadista Estado Islâmico (EI).

"Os jovens do Twitter sentem que a imprensa internacional vinculou o terrorismo ao Islã e querem reafirmar que eles não têm nada a ver com isso, que eles são bons", disse Henry, professor da Universidade Americana do Cairo (AUC).

Henry, que é egípcio, se identifica com aqueles que responderam reafirmando sua identidade muçulmana e elogiando os valores humanos da religião. Ele reiterou que as postagens devem ser observadas no contexto da rede social, caracterizada por "grande desinibição".

No entanto, ele alerta que nesse tipo de mensagem, com apenas 140 caracteres, ninguém faz um verdadeiro exame de consciência.

"O problema com os árabes é que sempre fazemos o papel de vítimas, nos falta o olhar interior. Não temos a cultura de reconhecer nossos problemas e isso representa um problema, um grave problema", avaliou o professor.

Para Henry, os muçulmanos permitiram que os terroristas criassem uma "imagem monstruosa" do Islã e foram incapazes de estabelecer limites. Por isso, reiterou que, "enquanto a cultura do vitimismo e as teorias conspiratórias tiverem prioridade para explicar qualquer crise, os problemas não serão solucionados".

O professor ainda acredita que, para resolver a questão, é preciso reformar o discurso religioso e separar o Estado da religião. /EFE

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