Egito altera data das eleições após reclamações

A presidência do Egito vai trocar a data do início das eleições para a Câmara Baixa do Parlamento, após cristãos coptas terem reclamado que ela coincidirá com um feriado religioso, informou a televisão estatal do país neste sábado.

ÁLVARO CAMPOS (ALVARO.CAMPOS@ESTADAO.COM), Agência Estado

23 de fevereiro de 2013 | 18h34

O presidente do país, Mohammed Morsi, que é muçulmano, havia emitido um decreto na quinta-feira definindo que a eleição de quatro turnos começaria em 27 e 28 de abril, dias em que os cristãos coptas comemoram o Sábado de Lázaro e o Domingo de Ramos. O restante da semana, antes da Páscoa, em 5 de maio, é considerado sagrado. Agora, com a mudança, a votação deve começar no dia 22 de abril.

A Igreja Ortodoxa Copta é a igreja cristã nacional do Egito. Muitos coptas acreditam que Morsi e seus aliados muçulmanos querem excluir a minoria cristã, em meio a rumores persistentes e constantemente negados pelas autoridades eleitorais de que eles foram barrados em alguns locais de votação nas últimas eleições. O bispo Morcos, alta autoridade da Igreja Copta, afirmou que a realização das eleições em um feriado cristão "afetaria o porcentual de votos coptas".

A televisão estatal não deu mais detalhes sobre a nova data da eleição, que substituirá o Parlamento dominado por muçulmanos e dissolvido pela Justiça em junho do ano passado. A votação será realizada em quatro etapas e a Assembleia Nacional deve se reunir pela primeira vez em 6 de julho.

Neste sábado, um dos líderes da oposição no Egito, Mohamed ElBaradei, pressionou por um boicote das eleições parlamentares, mas outras autoridades do seu grupo afirmaram que eles ainda avaliam essa possibilidade. "Convoquei um boicote das eleições parlamentares em 2010 e hoje repito meu pedido, pois não farei parte desse ato de farsa", escreveu ElBaradei em sua conta na rede de microblogs Twitter.

Outro líder político, o ex-ministro de Relações Exteriores Amr Mussa, afirmou que muitos membros da oposição estão tendendo a boicotar a eleição, mas uma decisão final ainda não foi tomada. "Existe um grande grupo que quer o boicote, mas isso ainda não foi discutido e nenhuma decisão foi tomada", disse.

Já o partido Al-Ghad al-Thawra, liderado pelo ex-adversário de Mubarak, Ayman Nour, diz que Morsi errou em convocar as eleições agora. "A última coisa que nós precisamos é entrar em um novo ciclo que polarize e divida o país ainda mais. Primeiro é preciso haver estabilidade. As eleições deveriam ter sido adiadas para que possamos lidar com prioridades maiores, como a situação da economia, dos serviços de educação e saúde", comenta Shadi Taha, um dos líderes do partido.

A oposição afirma que Morsi está agindo como seu antecessor, o ditador Hosni Mubarak, derrubado por um levante popular em 2011. No governo anterior, as eleições eram amplamente fraudadas e o Parlamento era dominado pelos membros do partido governista.

Mas a Irmandade Muçulmana, do Partido Justiça e Liberdade, de Morsi, diz que os adversários estão fugindo da disputa. O vice-presidente do partido, Essam el-Erian, escreveu em sua página no Facebook que "fugir de uma votação popular significa apenas que alguém quer conquistar o poder sem um mandato democrático".

Na última votação ocorrida no país, um referendo realizado em dezembro sobre a nova Constituição, ElBaradei fez campanha pelo "não". A votação foi marcada por controvérsias e grupos de direitos civis reclamaram de irregularidades. Apesar de uma taxa de comparecimento de apenas 30%, a Constituição foi aprovada com mais 60% dos votos.

Os partidos liberais e seculares têm registrado uma votação muito pequena, embora tenham participado ativamente do movimento que derrubou Mubarak. Sua influência é ofuscada pelos grupos muçulmanos, que têm uma rede bem organizada de programas sociais e projetos filantrópicos.

Protestos

No segundo aniversário do levante contra Mubarak, em 25 de janeiro, a raiva contra a impunidade com as forças de segurança e uma série de outros problemas sociais levaram a uma onda de protestos pelas ruas, que culminou com episódios de violência. Quase 70 pessoas morreram desde então, mais de metade delas na cidade de Port Said, nas margens do Canal de Suez.

Neste sábado, uma campanha de desobediência civil em Port Said entro no seu sétimo dia. Os manifestantes exigiam indenizações pelos mortos nos conflitos iniciados em janeiro. Também ocorrem protestos quase diários no Cairo e na cidade de Mahalla, onde existe uma grande indústria têxtil. As informações são da Dow Jones e da Associated Press.

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