Egito fala em rever acordo com Israel

A chamada ''paz fria'' entre os dois países está cada dia mais fria após queda de Mubarak e dos eventos pós-protestos

Edmund Sanders e Batsheva Sobelman, Los Angeles Times, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2011 | 00h00

A chamada "paz fria" de Israel com o Egito parece mais fria a cada dia que passa. Ontem, pela primeira vez desde a Revolução Iraniana, em 1979, o Egito permitiu a passagem de dois navios de guerra iranianos pelo Canal de Suez.

Durante um ato religioso realizado na sexta-feira na Praça Tahrir, no Cairo, o clérigo contrário a Israel Yusuf al-Qardawi - que acaba de voltar ao Egito do exílio - pediu a "conquista" da mesquita al-Aqsa em Jerusalém Oriental, o terceiro local mais sagrado do Islã, tomado por Israel na Guerra dos Seis Dias de 1967.

Além disso, os fornecimentos de gás natural para Israel, Jordânia e Síria continuam suspensos desde que desconhecidos tentaram, no início do mês, explodir o gasoduto na Península do Sinai. Um organizador dos protestos que derrubaram o presidente Hosni Mubarak do Egito disse, na semana passada, que seu grupo se opõe à retomada das exportações para a "entidade sionista".

Embora os israelenses tenham se acalmados depois que os militares egípcios garantiram que acordos internacionais como o tratado de paz egípcio-israelense de 1979 serão honrados durante o governo interin, líderes da oposição no Egito falam da necessidade de "reavaliar" ou "rever" o pacto histórico.

Alguns israelenses temem sinais de uma reação contra Israel depois de décadas de hostilidades mal contidas nas ruas egípcias, onde muitos ainda consideram Israel um inimigo.

"Devemos lembrar que muitos dos jovens egípcios que protestaram nas ruas exigindo democracia e prosperidade são antiamericanos e anti-israelenses", disse Michael Laskier, professor de Estudos sobre o Oriente Médio da Universidade Bar-Ilan. "É possível que queiram acertar contas com ambos."

Mesmo que o próximo governo do Egito opte por manter o tratado de paz, muitos israelenses temem que um futuro Egito democrático decida seguir o exemplo da Turquia, outrora aliada de Israel, que no ano passado rompeu as relações diplomáticas.

Embora o tratado de paz exija que o Egito conceda a Israel a passagem através do canal e procure impedir que elementos hostis ataquem Israel de algum ponto atrás das fronteiras egípcias, outras formas de cooperação não fazem parte do acordo.

Além de acabar com as exportações de gás natural, que agora representam cerca de 40% dos fornecimentos de Israel, um futuro governo egípcio poderá interromper sua assistência suspendendo o fluxo de imigração africana através do Egito para Israel ou de armas para a Faixa de Gaza, sem violar as condições do tratado, dizem especialistas.

"A total abolição do tratado de paz põe em risco a importante ajuda americana", disse Laskier. "Portanto, talvez um novo regime faça de tudo para evitar enfurecer o governo Obama não comprometendo a paz, mas tampouco preservando-a. O tratado de paz poderia perder força ou mesmo seu sentido." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM ISRAEL

É JORNALISTA

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