Egito faz campanha em consulta que amplia poder do governo

Os centros eleitorais de Cairo praticamente vazios e a rotina da cidade, que manteve seu ritmo habitual, refletiram o descaso da população com o plebiscito constitucional realizado nesta segunda-feira, 26.A oposição, que manteve um boicote em relação à consulta popular, não conseguiu mobilizar um grande número de pessoas.Os pouco mais de 35 milhões de eleitores foram convocados a se pronunciar sobre as 34 emendas propostas pelo presidente egípcio, Hosni Mubarak, que - entre outros - permitem a eleição do presidente sem limite de mandatos, proíbe os partidos religiosos e abre as portas para uma temida lei antiterrorista.A polícia organizou um grande deslocamento em todos os colégios eleitorais, com agentes uniformizados e à paisana, apesar do desinteresse popular com a consulta.O "plebiscito expresso" foi convocado há apenas seis dias, na segunda-feira à noite, mas o governo teve tempo de distribuir cartazes pelas ruas pedindo o "sim" "para modernizar o país" e "para lutar contra o terrorismo".Quase todos os locais de votação estavam cheios de propagandas a favor do "sim", como costuma ser habitual nos plebiscitos no Egito.As cédulas de voto contêm quatro páginas onde estão escritas com todo os detalhes as 34 emendas constitucionais. O voto afirmativo é um círculo verde (cor associada ao Islã) e o negativo é um círculo preto.Ninguém pede o "não" às reformas, pois a oposição, tanto islâmica como laica, decidiu boicotar a consulta.A organização Kifaya, um grupo de islamitas moderados e esquerdistas, conseguiu reunir cerca de 30 manifestantes na porta do sindicato dos jornalistas, no centro do Egito.Os cerca de 500 policiais que os vigiavam criavam um eficaz efeito dissuasivo diante dos eventuais simpatizantes."Deixamos que se manifestem, mas sob controle policial, para que não atentem contra a paz cidadã", disse hoje o ministro da Informação egípcio, Anas al-Fiqi, em entrevista coletiva.Neste domingo, 65 ativistas do Kifaya foram detidos quando iniciavam um protesto em que permaneceriam sentados durante toda a noite na praça de Tahrir, que hoje amanheceu sitiada pela Polícia.No entanto, não foram os apelos do Kifaya, mas o desinteresse da população que mantinha os colégios quase vazios, tanto em bairros populares como nos mais abastados do Cairo."Para que vou votar, se já sabemos os resultados com antecipação? Alguma vez viu (o governo) perder os referendos?", disse um comerciante, em uma opinião amplamente repetida.Um grupo de moças de cerca de 20 anos expressaram outra opinião. Depois de votarem, elas reconheceram ter decidido pelo "não"."Somos contra a lei antiterrorista, porque permite deter as pessoas sem motivos", disse Muna, apoiada pelas amigas.O último plebiscito no Egito, realizado em maio de 2005, também para uma emenda constitucional, teve a participação de 53% dos eleitores, mas as eleições presidenciais posteriores, quando Hosni Mubarak foi reeleito, teve apenas 23% de presença.Considerando que ninguém pede o "não" no plebiscito desta segunda-feira, a principal incógnita é saber quantos egípcios participarão da votação.

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