Egito, nova Índia ou Paquistão?

Das escolhas que fizer o país de Mohamed Morsi agora dependerá o futuro da democracia em todo o mundo árabe

THOMAS L. FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2012 | 04h34

Há três semanas, o primeiro ministro da Índia nomeou Syed Asif Ibrahim como diretor do Intelligence Bureau, agência de inteligência do país. Ibrahim é muçulmano. A Índia é um país predominantemente hindu, mas também é a terceira maior nação muçulmana do mundo. E hoje, a maior ameaça à segurança do país são os violentos extremistas muçulmanos.

A nomeação de um muçulmano para chefiar o serviço de inteligência indiano é algo realmente extraordinário. Mas também decorre de uma evolução no sentido de fortalecer as minorias. O primeiro-ministro da Índia e seu chefe do Estado-Maior são sikhs e o ministro do Exterior e o presidente da Suprema Corte, muçulmanos. É como se o Egito indicasse um cristão coopta para o alto-comando do Exército. "Um absurdo", você dirá.

Bem, isso é verdade agora. Claro que, se continuar uma verdade dentro de uma década ou duas, então saberemos que a democracia no Egito fracassou e o Egito seguiu o caminho do Paquistão, e não da Índia. Ou seja, em vez de se tornar um país democrático em que seus cidadãos realizarão seu pleno potencial, ele terá se transformado num país muçulmano onde Exército e Irmandade Muçulmana se apoiam mutuamente para ambos permanecerem indefinidamente no poder e a "população" continuar apenas uma espectadora. Se o Egito vai se parecer mais ao Paquistão ou à Índia é algo que terá grande impacto no futuro da democracia em todo o mundo árabe.

Certamente a Índia ainda tem problemas de governança e os muçulmanos são discriminados. Contudo, "democracia é importante", afirma Tufail Ahmad, indiano muçulmano que dirige o South Asia Studies Project no Middle East Media Research Institute, porque "foi a democracia na Índia que durante seis décadas derrubou gradativamente barreiras primordiais - como as de casta, tribo e religião, abrindo caminho para todos os diferentes setores da sociedade indiana progredirem por seus próprios méritos, que é exatamente o que fez Ibrahim".

E foram as seis décadas de tirania no Egito que deixaram o país profundamente dividido, com amplos segmentos da população que desconhecem ou não confiam um no outro e onde as teorias de conspiração são abundantes. Hoje o Egito todo precisa se recolher e refletir sobre essa questão: como a Índia, uma outra antiga colônia britânica, acabou se tornando o que ela é hoje (deixando à parte a cultura hindu)?

A primeira resposta é tempo. A Índia viveu décadas de democracia atuante e, antes da independência, lutou por essa democracia. O Egito vive num clima de democracia há menos de dois anos. O campo político do país ficou sufocado e monopolizado durante décadas - as mesmas décadas em que líderes políticos, de Mahatma Gandhi a Jawaharlal Nehru e Manmohan Singh "erigiram um sistema excepcionalmente diverso, cacofônico, mas impressionantemente flexível e tolerante", observa Larry Diamond, especialista da Universidade de Stanford e autor do livro Spirit of Democracy: The Struggle to Build Free Societies Throughout the World.

O partido político dominante na Índia quando o país depôs o governo colonial "foi provavelmente o mais multiétnico, abrangente e politicamente democrático que lutou pela independência entre todas as colônias existentes no século 20 - o Congresso Nacional Indiano", disse Larry Diamond. Ao passo que o partido dominante quando o Egito pôs fim à tirania de Hosni Mubarak, a Irmandade Muçulmana, "é um partido religiosamente exclusivista com raízes profundamente autoritárias que apenas recentemente evoluiu na direção de algo mais aberto e pluralista".

Além disso, acrescenta Diamond, comparemos as filosofias e os herdeiros políticos de Mahatma Gandhi aos de Sayyid Qutb, luz norteadora da Irmandade Muçulmana. "Nehru não era um santo, mas procurou preservar o espírito de tolerância e de consenso, e respeitou as regras", diz Diamond. E também deu prioridade à educação. Inversamente, "os líderes radicais da Irmandade Muçulmana, que estão no comando desde que o Egito iniciou seu caminho na direção de eleições, afastaram os moderados de dentro do partido, encamparam os poderes de emergência, espancaram seus rivais nas ruas e agora procuram impor à força uma Constituição que carece de consenso para um amplo segmento da sociedade egípcia que se sente excluído e oprimido".

Depois, temos o Exército. Ao contrário do Paquistão, os líderes pós-independência da Índia separaram o Exército da política. No Egito, infelizmente, após o golpe de 1952, Gamal Abdel Nasser integrou os militares na política e todos os seus sucessores, até Mubarak, os mantiveram no poder e tiveram o respaldo do Exército e dos seus serviços de inteligência. Quando Mubarak caiu e os novos líderes da Irmandade empurraram os militares de volta para seus quartéis, os generais perceberam claramente que teriam de firmar um acordo para proteger a enorme rede de interesses econômicos que criaram. "Sua forte cumplicidade na velha ordem os levou a um acordo com a nova", disse Diamond. "Agora não podem atuar como uma força de coerção".

Sim, democracia é importante. Mas a Irmandade Muçulmana precisa compreender que a democracia é muito mais do que apenas vencer uma eleição. É fomentar uma cultura de inclusão e de diálogo pacífico, onde os líderes ganham o respeito dos oponentes por meio de compromissos e não de decretos.

Há muito tempo o economista indiano e Prêmio Nobel, Amartya Sen, afirmou que foi a história da civilização da Índia, que consagrou o diálogo e a argumentação, que levou o país uma predisposição às instituições democráticas. Mais do que qualquer outra coisa, o Egito hoje precisa desse tipo de cultura do diálogo, do debate pacífico e respeitoso - que foi totalmente suprimido no governo Mubarak - em vez de atirar pedras, apelar aos boicotes, às intrigas conspiratórias e esperar que os EUA denunciem um ou outro lado, o que tem caracterizado, e muito, a cena política pós-revolucionária. Eleições sem essa cultura são como um computador sem software. Não funcionam. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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