Egito pede congelamento do patrimônio de Mubarak

O Ministério Público egípcio pediu na segunda-feira o congelamento do patrimônio de Hosni Mubarak, num primeiro sinal de que o ex-presidente, derrubado há dez dias, poderá ser responsabilizado por atos do seu regime.

YASMINE SALEH E MOHAMMED ABBAS, REUTERS

21 de fevereiro de 2011 | 19h27

Um promotor disse em nota que pediu à chancelaria que use os canais diplomáticos para solicitar o congelamento de bens e contas no exterior pertencentes a Mubarak, à sua mulher, Suzanne, e a seus dois filhos, Gamal e Alaa, com as respectivas esposas. A imprensa especula que o ex-ditador tenha acumulado uma fortuna bilionária, mas ex-assessores dele negam qualquer enriquecimento ilícito.

Também na segunda-feira, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, tornou-se o primeiro chefe de Estado estrangeiro a visitar o Egito pós-Mubarak. Ele se reuniu com o marechal Mohamed Tantawi, novo homem forte do país, e pediu o fim da lei de emergência em vigor há décadas.

Cameron recusou-se a encontrar líderes da Irmandade Muçulmana, principal grupo de oposição do país, visto com preocupação por alguns governos ocidentais.

"O que é animador no que está acontecendo é que não se trata de uma revolta islâmica, não são extremistas nas ruas, é o povo que deseja o mesmo tipo de liberdade básica que consideramos natural no Reino Unido", disse Cameron a jornalistas, enfatizando também a importância de "uma transição realmente genuína do regime militar para o regime civil".

A Irmandade disse na segunda-feira que o novo gabinete a ser anunciado pela junta militar deverá excluir todos os ministros egressos do regime anterior.

"Queremos um novo governo tecnocrata, sem conexão com a antiga era", disse Essam El Arian, dirigente da Irmandade Muçulmana, que era proibida no governo Mubarak. "Ninguém nos ofereceu nenhum cargo, e se tivessem oferecido teríamos rejeitado, porque (...) o público exige que este governo saia, já que é parte do antigo regime."

Um porta-voz do governo disse que o primeiro-ministro Ahmed Shafiq ainda está fazendo consultas, e que são prematuros os comentários sobre a manutenção de ministros de Mubarak em pastas importantes - como as da Defesa, Relações Exteriores, Interior e Finanças.

A Irmandade, que diz defender uma democracia com princípios islâmicos, está representada num comitê que prepara emendas constitucionais e num conselho de "defesa da revolução", e deve se registrar como partido político assim que as novas regras permitirem.

Temendo ser reprimida, a Irmandade adotou uma postura cautelosa no início da rebelião contra Mubarak, e pouco a pouco assumiu um papel mais proeminente. Mas o grupo - visto com preocupação pelos EUA e outros governos ocidentais - nega ter a intenção de apresentar candidato a presidente ou fazer maioria no Parlamento.

RUAS PARA OS MÁRTIRES

Uma grande incógnita no cenário político egípcio é o papel que os militares reservarão para si. Na sexta-feira, uma gigantesca passeata comemorou a queda de Mubarak, mas também lembrou aos militares que as manifestações populares poderão recomeçar se os generais renegarem as promessas de democratização do país.

Na segunda-feira, as Forças Armadas anunciaram uma anistia para armas roubadas durante a revolução, e o primeiro-ministro Shafiq ordenou que ruas sejam rebatizadas em homenagem a alguns dos 356 "mártires" da revolta. No domingo, as autoridades haviam anunciado a libertação de 108 presos políticos.

(Reportagem adicional de Edmund Blair, Shaimaa Fayed, Marwa Awad, Tom Perry, Dina Zayed, Alexander Dziadosz, Sarah Mikhail e Tom Pfeiffer)

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