Egito pós-revolução desafia política americana para o Oriente Médio

Desestabilizado pelo fim abrupto da ditadura de Hosni Mubarak, o Egito transformou-se em um desafio para os EUA. À frente do país mais populoso da região, crucial para o equilíbrio do Oriente Médio, o presidente Mohamed Morsi caminha na corda bamba, tentando conciliar cortejos e pressões de Washington, uma opinião pública indócil e grupos fundamentalistas antiamericanos - ontem, a Al-Qaeda estimulou novos ataque a embaixadas.

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2012 | 03h05

As dificuldades de Morsi em lidar com os EUA ficaram claras nesta semana, quando depois de 48 horas de silêncio a Irmandade Muçulmana manifestou-se sobre os incidentes no Cairo. Pelas mãos do engenheiro Khairat el-Shater, eminência parda do atual presidente, a confraria deplorou as tentativas de invasão da embaixada dos EUA, mas o fez com uma frase que revelou a fragilidade dos laços: "Esperamos que as relações que americanos e egípcios forjaram nos últimos meses possam sobreviver aos distúrbios da semana".

O presidente americano, Barack Obama, reagiu na quinta-feira, ao dizer que Morsi não é "nem aliado", "nem inimigo". "Se ele demonstrar que não assume suas responsabilidades, isso causará grandes problemas", afirmou. Na capital egípcia, as declarações de Obama serviram como combustível para os distúrbios da sexta-feira, que invadiram a madrugada de ontem. Em Qasr al-Nile, a avenida que costeia o Rio Nilo, centenas de jovens desafiavam a polícia com paus e pedras, mesmo sob granadas de gás lacrimogêneo e balas de borracha - confronto que deixou um morto.

Na Praça Tahrir, salafistas empunhavam bandeiras negras - idênticas às adotadas pela Al-Qaeda -, além de alguns cartazes de Osama bin Laden. Eles pediam, com gritos, mas sem violência, a expulsão do embaixador dos EUA e a punição dos produtores do filme Inocência dos Muçulmanos, cujo trailer colocado no YouTube detonou os protestos.

"Somos contra esse vídeo e queremos providências do governo dos EUA. Mas o povo egípcio precisa compreender que o objetivo principal desse filme humilhante é provocá-lo, para que sejamos vistos como bárbaros", disse ao Estado Ehab Shazle, um dos militantes que puxava os gritos, mas pregava protestos pacíficos. "A violência seria a justificativa de Israel para impedir que os outros países ajudem a economia e a defesa do Egito."

Centenas observavam os protestos com neutralidade. "A maioria da população não apoia nem os salafistas nem os jovens. Mas todos estamos furiosos com os EUA, porque seu governo sempre demora para reagir quando somos ofendidos, e só o faz depois de protestos", explicou o engenheiro aeronáutico Salahedin Omar. "Não vejo antiamericanismo na maioria da população do Egito. O que eu sinto é uma insatisfação com comportamentos que nos decepcionam, como agora. Não sabem que somos muito sensíveis a ofensas ao profeta?"

Para Omar, eleitor de Morsi, o presidente enfrenta uma situação delicada: tem viagem marcada para Washington, onde encontrará Obama. Se cancelar, enviará mais um sinal de distanciamento. Se viajar, perderá de vez o respeito dos fundamentalistas. E se passar a imagem de subserviência perderá apoio da opinião pública. "Morsi está forçado a manter a distância, caso contrário será visto como agente dos EUA", diz Omar.

"Morsi precisa encontrar o ponto exato entre diferentes interesses", diz Mohamed Ezz al-Arab, cientista político do centro de estudos Al-Ahram, do Cairo.

Oportunidade. Diante de um governo que tenta encontrar os rumos de sua política externa, a Al-Qaeda aproveitou a situação para estimular ontem novas invasões a missões diplomáticas, pregando em nota a "expulsão de embaixadas dos países muçulmanos" e elogiando os radicais líbios pelo assassinato do embaixador Christopher Stevens, morto em Benghazi, na Líbia, na terça-feira. A rede terrorista disse também que a ação vingou a morte em junho do número 2 da organização, Abu Yashya al-Libi, no Paquistão.

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