Egito usa tanques para conter protestos

Pela TV, presidente egípcio afirma que promoverá diálogo com líderes da oposição

CAIRO, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 23h49

A Guarda Republicana, elite do Exército egípcio, cercou ontem o palácio presidencial com tanques e arame farpado para conter os confrontos entre islamistas, aliados do presidente Mohamed Morsi, e grupos opositores. Nas últimas 24 horas, 7 pessoas morreram e mais de 400 ficaram feridas em choques entre manifestantes no Cairo.

O prazo dado pelos militares para que os manifestantes deixassem o local terminou ontem ao meio-dia. Os partidários de Morsi foram embora pacificamente, mas os opositores permaneceram acampados, vigiados de perto por membros da Guarda Republicana. O presidente americano, Barack Obama, disse que a violência é inaceitável e pediu a Morsi que converse com os líderes da oposição.

Dentro do palácio, Morsi passou o dia reunido com assessores e líderes militares para encontrar soluções para a mais grave crise política desde que assumiu o poder, em junho. As manifestações começaram na semana passada, depois que o presidente promulgou uma série de decretos que o torna imune ao Judiciário e impede que juízes interfiram na Assembleia Constituinte. Ontem, a sede da Irmandade Muçulmana no Cairo foi incendiada.

Discurso. À noite, o presidente falou pela primeira vez à nação após o início dos distúrbios. Em discurso na TV, ele acusou alguns manifestantes de estar a serviço do velho regime e prometeu lutar contra qualquer um que tente derrubar seu governo. Morsi anunciou um diálogo "abrangente e produtivo" com a oposição, que começaria amanhã, e afirmou que o referendo constitucional ocorrerá mesmo no dia 15. Mesmo diante da forte pressão popular, ele afirmou que não voltará atrás e manterá os decretos que deram início à crise.

Segundo o presidente, os egípcios devem "superar suas diferenças" e seguir unidos, independentemente de partidos políticos. Morsi afirmou que respeita a liberdade de expressão, mas garantiu que não "tolerará assassinatos ou atos de vandalismo" durante as manifestações.

Morsi é um dos líderes da Irmandade Muçulmana, grupo islâmico que foi reprimido durante a ditadura de Hosni Mubarak, mas venceu as primeiras eleições democráticas do Egito e passou a comandar os trabalhos para escrever uma nova Constituição.

O painel constituinte, encarregado de elaborar o texto, é dominado por políticos islâmicos. Grupos laicos, de esquerda, estudantes e nacionalistas acusam o governo e seus aliados de tentar impor à nova Constituição leis religiosas, ignorar garantias individuais e retomar os poderes ditatoriais de Mubarak, deposto no início de 2011.

Sob pressão das ruas, Morsi afirmou que os decretos eram provisórios e cruciais para proteger o trabalho do painel constituinte. Para resolver o impasse e temendo que o Judiciário dissolvesse a Assembleia, o texto final foi concluído às pressas e aprovado. Agora, será levado a referendo.

Ontem, forças de segurança egípcias prenderam diversos manifestantes ligados a grupos opositores que protestavam diante da casa de Morsi, na cidade de Zagazig. Após as detenções, houve confronto e os manifestantes jogaram pedras contra os policiais, que responderam com bombas de gás lacrimogêneo.

Renúncias. Ontem, mais três aliados de Morsi entregaram seus cargos. Um deles, o vice-presidente do Partido Liberdade e Justiça (PLJ), Rafik Habib, cristão copta, era tido como um exemplo de que o governo era tolerante com as minorias. "Decidi renunciar a qualquer trabalho político e me retirar de qualquer papel político", afirmou Habib.

Os outros dois aliados que renunciaram foram Essam El-Amir, diretor da TV estatal, e Zaghoul El-Balshi, secretário-geral da comissão que organiza o referendo constitucional. "Não participarei de um referendo que derramou o sangue egípcio", disse Balshi. Já são nove assessores de Morsi que deixaram seus cargos. / REUTERS, AP e NYT

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