Egos de quatro estrelas: o culto ao general

Na história americana, muitos outros militares antes de Petraeus envolveram-se com amantes e usaram sua posição para beneficiar amigos ou galgar os degraus do poder

MARK PERRY, FOREIGN POLICY, É ESCRITOR, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2012 | 02h05

Em maio de 1934, os repórteres Drew Pearson e Robert Allen publicaram um artigo no jornal Washington Herald no qual acusaram o então chefe do Estado-maior do Exército, general Douglas MacArthur, de ter cometido atos "ditatoriais, insubordinados, desleais, rebeldes e desrespeitosos" durante a Bonus March, uma manifestação da qual participaram mais de 10 mil veteranos da 1.ª Guerra que reivindicavam o pagamento de bonificações que lhes haviam sido prometidas pelo governo, um protesto pacífico.

MacArthur dissolveu o ato com o uso da força - com tanques comandados pelo general George Patton - em julho de 1932, uma decisão que manchou para sempre sua reputação. Enraivecido pelo artigo dos dois jornalistas, MacArthur entrou com uma ação contra eles no valor de US$ 1,75 milhão. Os repórteres ficaram apavorados, pois sabiam que dificilmente poderiam provar suas acusações. A parte interessante vem agora.

Entre os inimigos de MacArthur havia o deputado Ross Collins, um poderoso democrata de Mississippi - de fala arrastada, maxilar pronunciado, o personagem completo - que controlava as verbas destinadas aos militares e morava no prédio Chastleton Apartment na Rua 16, e muitas vezes vira MacArthur no edifício. Collins não gostava de MacArthur e quando descobriu que Pearson e Allen buscavam algo para usar contra o general contou-lhes a respeito das visitas.

Pearson e Allen investigaram a indicação de Collins e descobriram que MacArthur, na época com 55 anos, visitava Isabel Rosario Cooper, uma estrela de cinema filipina que conhecera na época do seu último comando em Manila, levara consigo para os EUA, e com a qual estava tendo um caso.

Isabel era jovem e linda e MacArthur a cobria de presentes - enquanto foi chefe do Estado-maior a visitava todos os dias durante seus longos almoços. Mas Isabel se cansou do general, sentindo-se sufocada por suas atenções, então foi morar com seu irmão em Baltimore, onde Pearson e Allen a encontraram. Lá, ela contou aos repórteres o que MacArthur falava a respeito de Herbert Hoover (um "molenga", ele disse), e de Franklin Roosevelt ("aquele aleijado da Casa Branca").

Como era de se prever, quando MacArthur foi informado de que a primeira testemunha a ser chamada no caso seria Isabel, deu um pulo. O processo foi encerrado mediante o pagamento a Isabel de US$ 15 mil - que agora consideraríamos um "suborno" - que foram entregues por seu assessor militar, nada menos que o futuro presidente Dwight Eisenhower.

Escândalo. Inevitavelmente, os detalhes deste escândalo picante circularam por toda Washington, deixando os admiradores de MacArthur - uma multidão - indagando como um homem que realizara tantas façanhas pudera colocá-las em risco de uma maneira tão irresponsável. Agora, 80 anos mais tarde, Washington pergunta-se exatamente a mesma coisa a respeito de David Petraeus.

Os admiradores de Petraeus evitarão, sem dúvida, qualquer comparação do seu herói com o tão denegrido MacArthur, cuja reputação foi terrivelmente abalada ao longo dos anos por causa de seus atos durante a Bonus March e posteriormente por seu confronto com Harry Truman. E destacarão corretamente várias diferenças notáveis: enquanto MacArthur formou-se em primeiro lugar em West Point e recebeu uma das maiores notas da história acadêmica, superado apenas por Robert E. Lee, é difícil acrescentar o termo "acadêmico" ao seu nome. O mesmo não ocorre com Petraeus, que recebeu notas altas em Princeton e foi um dos autores do hoje famoso Manual de Campo de Contrainsurgência do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA.

Além disso, MacArthur flertava sem parar com cargos mais altos no governo e sonhava com a presidência - um vírus que, segundo alguns boatos, teria infectado Petraeus, apesar de seus desmentidos categóricos. Tampouco alguém poderia supor que Petraeus confrontaria um presidente a ponto de cometer praticamente uma insubordinação, como MacArthur fez com Harry Truman, que por causa disso tirou dele o comando. MacArthur odiava Truman e comentou a respeito deste sentimento. É difícil imaginar que o cauteloso Petraeus odiasse alguém - principalmente um presidente.

Mas as diferenças poderiam terminar aqui. Petraeus e MacArthur têm em comum mais do que uma história de pecadilhos sexuais. Como todos os grandes comandantes, ambos tinham uma ambição ilimitada e um ego imenso, e deixaram atrás de si uma longa lista de inimigos ressentidos e exasperados no Exército americano. Essas qualidades são o fio comum que percorre toda a história dos EUA, pois no panteão dos grandes generais americanos não houve um que fosse um homem modesto.

Voltemos ao começo. George Washington distinguiu-se muito mais como presidente do que como general - foi batido em quase todas as missões, com exceção de Trenton (onde enfrentou o regimento alemão dos hessenos a serviço do Exército britânico) e da última, em Yorktown. Ele promoveu seus favoritos, perseguiu subordinados, foi excessivamente suscetível, irritava-se rapidamente e era impaciente com a estupidez. O fato de termos vencido sob o seu comando foi, como afirma um historiador, "quase um milagre".

Ulysses S. Grant, por outro lado, ganhou praticamente todas as batalhas nas quais ele combateu, mas a um custo terrível. Em Cold Harbor, seus soldados colocaram seus nomes nos uniformes para que seus corpos pudessem ser reconhecidos. "Sua ambição é como um motor", disse seu amigo Billy Sherman. A grande fraqueza de Grant era a bebida - Lincoln chegou a dizer jocosamente que precisava descobrir o que ele bebia para enviar-lhe um novo suprimento. "Preciso dele", dizia Lincoln. "Ele luta."

O grande triunvirato da vitória dos EUA na Europa na 2.ª Guerra - George Marshall, Dwight Eisenhower e Omar Bradley - não tem uma fama muito melhor. Marshall, o consagrado arquiteto do triunfo e, depois de Washington, o nosso general mais emblemático, é praticamente intocável nos anais da nossa história militar, mas há detratores. Ele foi um oficial que se mantinha distante dos colegas; muitos o lembram como uma figura sem nenhum calor humano, inexoravelmente impiedoso na busca dos seus objetivos.

Comentam o mesmo a respeito de Eisenhower, até seus melhores amigos: "Preferiria ser comandado por um árabe", escreveu Patton em seu diário. Outros observaram que, quando a guerra começou, "Ike" era visto regularmente "bajulando" o alto comando. Eisenhower tinha a doença de Lee: promovia e apoiava os amigos - como o general Mark Clark, que, perseguido por um bando de repórteres que o veneravam, insistiu em ser fotografado "do lado bom do seu rosto" e arruinou as operações aliadas na Itália.

Ike, assim como Petraeus e MacArthur, também buscou a companhia feminina como uma pausa em meio aos rigores do comando. A equivalente de Paula Broadwell de Eisenhower foi Kay Summeersby, que o acompanhou em toda parte durante a guerra.

As calúnias são indubitavelmente familiares a Petraeus. Muitos anos atrás, pedi uma reunião discutir a respeito de um ponto da história militar com um grupo de comandantes militares de alto escalão no Pentágono, durante a qual mencionei o nome do general Petraeus. Foi um erro. O clima na sala se tornou pouco confortável e todos calaram totalmente. Depois de um instante, sorri e continuei, ignorando os olhares parados dos oficiais que estavam na minha frente. "Eles o conheciam bem, serviram com ele, e não gostam dele", disse mais tarde meu anfitrião. "É por causa do seu ego. Ele gosta de se promover."

Então chegamos ao ponto: o panteão enlameado dos comandantes militares dos EUA, todos eles manchados por suas ambições e grandes egos, e cobertos de erros. Petraeus enquadra-se nesta descrição. A ambição desmedida e o ego enorme que o levaram à queda são precisamente as qualidades que podem ser encontradas entre os grandes comandantes americanos que o precederam.

Os historiadores notam os embaraçosos escândalos de Isabel, Kay e Paula, mas inevitavelmente se voltam aos momentos que definiram um grande comandante militar, com todos seus erros: o frio e feroz inverno em Valley Forge, a tarde interminável em Gettysburg, o dia em que Doug teve de andar na água em Leyte, ou quando Ike ficou sem palavras em Buchenwald - e quando Dave se pôs de pé no Senado, com o braço direito erguido, e declarou que, embora ninguém saiba "como isso poderá terminar", ele, pelo menos tinha um plano. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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