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EI avança na Líbia

O Estado Islâmico capturou a cidade portuária de Sirte. Mais uma! O fato é que Sirte não está na Síria ou no Iraque, os dois feudos preferidos do Estado Islâmico, mas longe dali, na Líbia. O que vem provar que, apesar dos ataques aéreos da coalizão ocidental, os avanços do EI continuam fulgurantes.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2015 | 02h03

O grupo jihadista saltou do Oriente Médio para a África. Preferiu se insinuar num país outrora poderoso, mas hoje corroído depois que a França conseguiu, com ajuda da Otan, derrubar o poderoso regime de Muamar Kadafi, matando-o de passagem e condenando ao terrorismo e ao caos um país que era um escudo contra o terrorismo.

O grande porto de Misrata, próximo de Sirte, está no olho do ciclone. Aguardamos sua queda. E nesse momento o EI controlará uma faixa de 200 km da costa mediterrânea e estará próximo dos campos de petróleo da Líbia, proporcionando à organização receitas consideráveis com as quais a jihad poderá aperfeiçoar seu arsenal.

A resistência contra os jihadistas na Líbia é ainda mais complicada uma vez que o país, após a intervenção militar, se fragmentou em múltiplas entidades, políticas, revolucionárias, tribais.

No momento, o país tem dois governos e dois "parlamentos": de um lado a milícia Fajr Libya, que controla Tripoli, a antiga capital, e provém de uma ideologia radical islâmica. De outro, a cidade de Tobruk subordinada ao general Haftar, que pertence ao grupo de partidários do ex-ditador Muamar Kadafi, morto em outubro de 2011.

A iminência da chegada dos jihadistas do EI pode ter uma consequência inesperada e talvez benéfica: as duas facções inimigas, de Tripoli e de Tobruk, superariam as divergências e criariam uma frente comum contra o perigo maior: a jihad. Assim como na Síria, as pessoas veem-se tentadas a se aliar ao diabo para erigir uma barreira contra outro maior, mais forte e mais cruel.

Na Síria alguns ocidentais gostariam de se unir a Bashar Assad, o sangrento tirano de Damasco, para erguer uma barragem contra o EI. Na Líbia o pessoal de Trípoli e o de Tobruk conseguirá passar por suas diferenças para enfrentar os estranguladores do EI? A ONU já trabalha neste sentido há um ano e agora intensificou o ritmo. Seu enviado especial, Bernardino Leon, gostaria muito que um governo unido representando a Líbia inteira fosse instalado antes do dia 17, quando começa o Ramadã.

Infelizmente, juntar as partes da Líbia para formar uma frente comum contra o "califado" é uma tarefa delicada. O Parlamento de Tobruk já reagiu às tentativas da ONU: na sua opinião os textos elaborados dão poderes demais a Tripoli. É um fato que observamos ao longo da história: dois clãs inimigos continuam se matando, quando então chega um terceiro que vai se apoderar do país. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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