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EI busca chegar a países não islâmicos

Para especialistas europeus, penetração da organização terrorista no Brasil é coerente com estratégia de sobrevivência do grupo em outras partes do mundo 

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2018 | 06h00

PARIS - A organização de células terroristas e de atentados em países sem grande presença de muçulmanos, como o Brasil, são projetos do Estado Islâmico para garantir sua expansão e visibilidade perdida com as derrotas na Síria e no Iraque. O alerta foi feito por dois dos maiores especialistas em terrorismo da Europa sobre o grupo jihadista brasileiro desmontado pela Polícia Federal e acusado de promover o terrorismo no País.

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Reportagem do Estado publicada na quarta-feira mostrou que 11 brasileiros foram denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) por formação de organização criminosa e promoção do EI. Os acusados teriam tentado recrutar jihadistas para as linhas de frente na Síria e planejado atentados durante o carnaval. A denúncia foi montada com base em diálogos e mensagens em aplicativos e redes sociais.

Este é um ponto em comum entre os brasileiros e os jihadistas europeus, que usam canais de comunicação como Telegram, não apenas para organizar células, mas também para coordenar atentados. A diferença entre eles é a ausência de históricos de vida em países ou comunidades muçulmanas.

Na Europa, quase todos os casos de envolvimento com o Estado Islâmico são de pessoas nascidas em famílias muçulmanas ou de descendentes de imigrantes de países islâmicos. Segundo Farhad Khosrokhavar, especialista em processos de radicalização da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Ehess), os casos de convertidos existem, mas nunca uma célula inteira foi formada apenas por extremistas que aderiram ao islamismo na idade adulta.

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O especialista cita apenas um caso conhecido de célula terrorista em que uma parte considerável do bando era de convertidos. Trata-se da célula Cannes-Torcy, formada por 20 homens com idades de 23 a 33 anos. O grupo, que foi desmembrado pela polícia e julgado pela Justiça da França, em 2017, tinha metade de seus membros convertidos.

“Células unicamente compostas por convertidos não existem na Europa. É a primeira vez que identificamos na América Latina o surgimento de um grupo que tinha a intenção de formar uma célula jihadista. Até aqui, os latino-americanos e o Japão vinham sendo poupados”, afirmou Khosrokhavar. 

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Para o EI, diz Khosrokhavar, organizar células e atentados são uma resposta à perda de território e de seu “califado” em solo sírio e iraquiano. “Ficou muito mais difícil montar células nos EUA e Europa, em países com mecanismos de inteligência e de polícia muito eficazes. Por outro lado, é mais fácil se instalar na América Latina, já que a polícia não suspeita de grupos que planejam a violência”, afirma. “O EI precisa mostrar que, embora sua estrutura de Estado tenha desaparecido, o grupo continua a existir.”

Ainda de acordo com Khosrokhavar, pouco importa se a célula de brasileiros mostrava uma prática real da religião muçulmana, porque essa não é a essência da adesão de jovens ao Estado Islâmico. “É raro que os jihadistas tenham a religião em primeiro plano. Na Europa, muitos dos jihadistas têm históricos de criminalidade comum, com passagens pela polícia e pela Justiça”, explica o especialista. 

“Com frequência, os jovens que se radicalizam mostram o desespero de viver uma vida de reincidência no crime e querem romper com isso lançando-se à causa de Alá. Eles poderiam ter matado muitas pessoas no Rio ou na Bahia, mostrando que o EI seria capaz atacar no Brasil.”

Expansão

Para Jean-Charles Brisard, fundador do Centro de Análise do Terrorismo, na França, países sem comunidades muçulmanas importantes também podem abrigar células jihadistas, já que o EI vem tentando se expandir para países e locais em que não tem presença. “São células terroristas muitas vezes embrionárias, mas que existem e devem preocupar as autoridades”, adverte.

Brisard lembra que há grupos jihadistas identificados em países do Leste Europeu, como Polônia, Romênia e República Checa, onde não há comunidades muçulmanas importantes. Esses grupos nem sempre projetam atentados em seus países, mas cooperam em rede, facilitando o trânsito de terroristas, abrigando-os ou prestando logística ao EI e a outras organizações. “Mesmo em países sem grande comunidade muçulmana, a ideologia do EI pode encontrar um terreno propício à sua propagação”, diz Brisard.

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