AFP PHOTO / Joseph EID AND Maher AL MOUNES
AFP PHOTO / Joseph EID AND Maher AL MOUNES

EI destruiu Palmyra, avalia Unesco

Reconstrução parcial do patrimônio histórico da cidade síria, se for possível, levará muito mais do que os cinco anos antes previstos

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

02 Abril 2016 | 19h00

PARIS - O patrimônio histórico mais simbólico dos 2 mil anos de história da cidade de Palmyra, na Síria, foi destruído durante os 10 meses de ocupação do grupo Estado Islâmico (EI). Essa é a primeira avaliação feita por arqueólogos sírios e pela Organização das Nações Unidas para a Cultura (Unesco) com base em imagens aéreas e terrestres coletadas após a liberação da cidade, no último domingo. 

Segundo Francesco Bandarin, diretor-geral assistente para Cultura da Unesco, a reconstrução parcial do que foi arrasado pode levar cinco anos – se for possível. O caso de Palmyra é o mais crítico exemplo do impacto ao patrimônio histórico da humanidade que a guerra na Síria e no Iraque está causando. 

Esta semana, uma primeira visita técnica de peritos da organização deve ser realizada com a autorização do comando do Exército da Síria, fiel a Bashar Assad. A avaliação marcará o retorno dos arqueólogos ocidentais, atualmente deslocados para Beirute, no Líbano, a um dos sítios históricos mais importantes da humanidade. 

Com base no estudo do que foi destruído, uma reunião será realizada até o fim do mês em Paris para discutir a estratégia de restauração e, se possível, reconstrução de parte das ruínas. 

Até o momento, explicou Bandarin ao Estado, o que se sabe são as informações obtidas por meio de imagens captadas por drones russos que sobrevoaram a região e o relato feito pelo diretor de Antiguidades e Museus da Síria, Maamoun Abdulkarim, um dos arqueólogos mais respeitados do Oriente Médio. 

O que foi atingido é o mais simbólico. “Temos uma ideia muito precisa do que foi destruído e do que não foi. Os dois templos, de Bel e de Baalshamin, o Arco do Triunfo, a estátua de Atena, em frente ao museu, algumas tumbas – provavelmente seis –, além de três colunas, que foram utilizadas para matar pessoas com explosivos, são exemplos”, afirmou Bandarin. 

“O EI não conseguiu destruir tudo, porque seria preciso explosivos e força de trabalho. Mas (os extremistas) destruíram os mais simbólicos. Como islamistas radicais, destruíram os templos, as partes do sítio que tinham mais valores simbólicos e eram imediatamente visíveis – como tumbas e mausoléus, inclusive islâmicos.”

As informações disponíveis indicam ainda que o Museu de Palmyra foi muito atingido. “Não sabemos exatamente o que ocorreu no museu. Muitas estátuas foram destruídas, tiveram as cabeças cortadas ou foram apenas derrubadas. Vi as fotos do museu. São catastróficas”, diz Bandarin. 

Alento. Em meio ao risco representado pelas ameaças do EI, no entanto, há boas notícias. A maior parte da arquitetura do sítio arqueológico foi preservada, como os templos de Nebo e Allat, a colunata, a ágora e o teatro. Além disso, as ruínas das termas do imperador Dioclécio não foram atacadas.

Com o inventário detalhado dos danos causados pelos extremistas, a Unesco passará a trabalhar, em parceria com o governo da Síria, em um projeto de restauração e, na medida do possível, de reconstrução – que é “cientificamente possível”, ainda não seja garantida. 

“É possível fazê-la quando temos ampla documentação sobre um sítio, com fotos e scanners que nos permitem reparar a forma dos objetos. Mas a reconstrução se aplica em geral à arquitetura. É difícil se aplicar à escultura, por exemplo”, avalia Bandarin, ressaltando que é difícil reconstruir, por exemplo, todo um templo, como o de Bel. 

“Se o material que ainda restou for relevante, talvez possamos reconstruí-lo. Se o material tiver sido pulverizado, será muito, muito difícil. Se colunas foram quebradas, podemos pensar. Se for apenas pó, é difícil.”

Segundo o especialista da Unesco, arqueólogos especializados terão de ser consultados porque haverá uma discussão de fundo filosófico sobre a forma de uma eventual reconstrução de Palmyra. “O instinto do momento é o de reconstruir, para mostrar que se pode responder a um ato de violência com um ato cultural. Mas isso é um pouco emocional. É melhor discutir bem com os sírios e analisar o que se pode fazer.”

Saques. A desestabilização política e militar da Síria e do Iraque abriu o flanco para que um tesouro arqueológico situado no berço da humanidade fosse saqueado – um crime ainda em curso e que rende divisas ao EI. Um balanço Unesco indica que só em território sírio mais de 200 frentes de escavações arqueológicas clandestinas foram abertas durante a guerra, iniciada em março de 2011. 

Avaliações parciais realizadas por arqueólogos especializados indicam que um número ainda indeterminado dessas duas centenas de escavações “estrangeiras” em solo sírio foram completamente saqueadas. “Quando fizermos uma avaliação, saberemos que a perda será irreparável”, aposta Bandarin. “O EI se aproveita muito do tráfico do material arqueológico. Neste momento a venda clandestina está muito intensa”, adverte. 

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