EI é uma espécie invasora

Como um vegetal externo que chega alterando o hábitat, o grupo radical conseguiu se espalhar na região porque as abaladas sociedades iraquiana e síria permitiram

THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2014 | 02h02

Uma autoridade iraquiana contou-me a história: quando o Estado Islâmico, também conhecido como Isil, tomou Mossul os combatentes jihadistas sunitas do Isil, muitos dos quais estrangeiros, foram de casa em casa. Nas casas de cristãos eles marcaram "Nassarah", um termo árabe arcaico para cristão. Mas nas casas de xiitas, marcaram "Rafidha", que significa "aqueles que rejeitam" a linha sunita de autoridade sobre quem deveria ser califa, ou líder da comunidade muçulmana, após a morte do Profeta Maomé.

Mas o interessante, disse a autoridade iraquiana, é que o termo "Rafidha" era em grande parte desconhecido no Iraque para descrever xiitas. É um termo usado por fundamentalistas wahabitas na Arábia Saudita. "Não conhecíamos essa palavra. Não é um termo iraquiano", disse. Fiquei intrigado com a história, pois ela ressalta o grau em que o Isil opera como uma "espécie invasora" do mundo vegetal ou animal. Ele não é nativo nem do ecossistema iraquiano nem do sírio. Nunca antes crescera em suas paisagens.

Às vezes considero útil me valer do mundo natural para ilustrar tendências em geopolítica e globalização. O website do United States National Arboretum observa que "espécies vegetais invasoras crescem onde a continuidade de um ecossistema natural é quebrada e são abundantes em locais abalados como áreas de construção e traçados rodoviários". "Em alguma situações, essas espécies estrangeiras causam sérias perturbações ecológicas. Nos piores casos, plantas invasoras expulsam impiedosamente outras formas de vida vegetal. Elas exercem uma pressão extrema sobre as plantas e animais nativos, e espécies ameaçadas podem sucumbir sob essa pressão. Por fim, as plantas invasoras alteram hábitats e reduzem a biodiversidade."

Não consigo pensar uma maneira melhor de compreender o Isil. Ele é uma coalizão. Uma parte consiste de combatentes jihadistas muçulmanos sunitas de todo o mundo: Chechênia, Líbia, Grã-Bretanha, França, Austrália e, em especial, Arábia Saudita. Ele se espalha tanto e tão rapidamente, apesar de seu número relativamente pequeno, porque as abaladas sociedades iraquiana e síria permitiram a esses jihadistas estrangeiros forjar alianças com membros de tribos seculares nativas sunitas iraquianas e sírias e com ex-oficiais do Exército baathista.

Hoje, o Isil - os estrangeiros e os locais - está exercendo pressão sobre todas as espécies nativas do Iraque e da Síria com o objetivo confesso de reduzir a diversidade dessas sociedades antes multiculturais e as transformar em monoculturas fundamentalistas sunitas, jihadistas, sinistras e obscuras. É fácil perceber como o Isil se espalha. Pensem na vida de um homem iraquiano sunita de 50 anos de Mossul. Ele primeiro foi alistado para lutar na Guerra Irã-Iraque que durou oito anos e terminou em 1988.

Depois, teve de lutar na primeira Guerra do Golfo quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Em seguida, sofreu uma década de sanções da ONU que quebraram a classe média do Iraque. Aí teve de suportar os anos de caos que se seguiram à invasão americana, que desaguou num regime xiita corrupto, brutal e pró-iraniano em Bagdá chefiado por Nuri al-Maliki - que fez tudo que pôde para manter os sunitas pobres e sem nenhum poder. Esse foi o ecossistema político abalado no qual o Isil encontrou terreno fértil.

Como lidar com uma espécie invasora? O National Arboretum diz que é preciso "usar cuidadosamente herbicidas sistêmicos" (a guerra aérea do presidente Barack Obama), enquanto se trabalha para fortalecer e "preservar hábitats com plantas nativas saudáveis" (os esforço de Obama para forjar um governo de unidade nacional em Bagdá com xiitas, sunitas e curdos).

Mas, em geral, ao longo dos anos no Iraque e no Afeganistão, os EUA investiram demais em herbicidas (armas e treinamento) e de menos no melhor baluarte contra uma espécie invasora (uma governança justa e não corrupta).

Pressão. Deveríamos estar pressionando o governo iraquiano, que tem muito dinheiro, para se concentrar em entregar a cada iraquiano ainda sob seu controle eletricidade 24 horas por dia, emprego, escolas melhores, mais segurança pessoal e um sentimento de que, seja ele de que seita for, o jogo não está armado contra ele e sua voz será ouvida. É assim que se fortalece um ecossistema contra espécies invasoras.

"Foram os desmandos governamentais que impeliram iraquianos a considerar uma relação com o Isil com a visão de que ele era menos pernicioso para seus interesses do que seu próprio governo (liderado por xiitas)", explicou Sarah Chayes, uma associada sênior do Carnegie Endowment for International Peace, ex-assessora americana no Afeganistão e autora do livro Thieves of State: Why Corruption Threatens Global Security (Ladrões do Estado: por que a corrupção coloca em risco a segurança global, em tradução literal) a ser lançado em breve.

O Exército iraquiano que os EUA construíram foi visto por muitos sunitas iraquianos como "executor de uma rede cleptocrática". Esse Exército foi "sugado pelos apadrinhados de Maliki para se tornar uma casca vazia incapaz de suportar a primeira bala".

O objetivo do Isil agora é arrastar os EUA para dentro, fazê-los bombardear cidades sunitas e mover sunitas que estão fora do jihadismo para longe dos EUA e para perto do grupo radical islâmico, pois "o Isil sabe que não pode sobreviver sem o apoio destes sunitas", disse Chayes.

Os EUA sempre superestimaram força e treinamento militar e subestimaram o que árabes e afegãos mais querem: uma governança justa e decente. Sem ela não há maneira de cultivar cidadãos reais com disposição de lutar - e sem disposição não há treinamento que funcione.

Perguntem a qualquer general - ou jardineiro. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER E ESCRITOR

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