Yaser Al-Khodor/Reuters
Yaser Al-Khodor/Reuters

‘Estado Islâmico exige atualização das análises sobre jihadismo’

Para escritor americano, fim do grupo jihadista depende de ação militar e atuação da religião para evitar o recrutamento de jovens

Entrevista com

Graeme Wood, autor do livro “A guerra do fim dos tempos: o Estado Islâmico e o mundo que ele quer”

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2017 | 05h00

“O Estado Islâmico representa uma grande mudança no mundo e o jeito que analisamos o jihadismo estava antiquado”. Com essa explicação, o professor de ciências políticas na Universidade de Yale Graeme Wood justifica por que passou quase três anos estudando o EI para escrever o livro A guerra do fim dos tempos: O Estado Islâmico e o mundo que ele quer.

“No EI, vemos mulheres, crianças, idosos, pessoas que não querem lutar, mas viver dentro do Estado Islâmico. É uma grande mudança”, contou Wood ao Estado, fazendo paralelos com a Al-Qaeda. A seguir, os principais trechos da entrevista. 

O Estado Islâmico difere da Al-Qaeda ou é uma transformação do grupo?

O EI aprendeu com os sucessos e erros da Al-Qaeda, que tentou realizar outros ataques na Europa e na América como o do 11 de setembro, mas por quase 15 anos falhou. O EI aprendeu que aquela estratégia não seria eficaz e optou por uma estratégia composta por duas partes: a criação de um Estado e a ordem para que todos os muçulmanos passem a viver nele e a realização de pequenos ataques, ao invés de grandes e espetaculares, para espalhar o medo.

Como o senhor vê a tática de recrutamento do EI?

A história das pessoas que se uniam à Al-Qaeda não eram particularmente interessantes. As biografias eram semelhantes, as nacionalidades também. Com o EI é diferente. Vemos um apelo que chega a pessoas de diferentes origens. A Al-Qaeda queria que os recrutados se unissem em uma célula militar, no EI vemos mulheres, crianças, idosos, pessoas que não querem lutar, mas viver dentro do Estado Islâmico. É uma grande mudança e mostra como a organização do grupo é diferente e é um dos motivos de tantos governos estarem preocupados. Não é só uma tentativa de ter um pequeno contingente de militares, mas um pedido aos muçulmanos que não se sentem integrados na sociedade em que vivem para se juntarem ao EI. 

Alguma história lhe chamou mais a atenção?

O americano John Georgelas, de cerca de 30 anos, ficou quase 10 anos estuando o Islã e esperava se tornar um jihadista. Percebi ali um jovem muito inteligente, que conhecia sobre história, idiomas, literatura, geologia, direito. E agora ele é uma figura importante no EI. Quanto mais você se aprofunda na história, mais chocante ela fica. A família dele é americana, muito patriótica. Outro exemplo é o de um jovem japonês que ficou muitos anos trabalhando para o stablishment do califado, viajou diversas vezes para o território do EI a convite do grupo. Isso mostra que as pessoas que se unem ao EI não são apenas americanos ou furiosos com os EUA pela atuação no Oriente Médio. Um jovem japonês que não tem nenhuma relação com a Síria ou o Iraque, não tem nada contra os EUA, ainda assim foi motivado o suficiente para viajar ao território do EI.

A escritora Ayaan Hirsi Ali defende em seu livro 'Herege' uma reforma do islamismo como maneira de acabar com o terrorismo. A religião é parte do problema?

Sim. Todos os que conheci que se dedicam ao EI decidiram seguir o grupo poque a religião deles, o Islã, requer isso, para lutar contra Estados não muçulmanos. Algumas pessoas pensam, e acredito que Ayaan Hirsi seja uma delas, que de fato o Islã pede que seus seguidores tenham exatamente essa atitude. Ela aborda que o Islã de fato diz que os muçulmanos devem lutar a jihad e rejeitar os Estados não muçulmanos. Então, não está totalmente errada. Eu divirjo dela ao pensar que em muitos termos o Islã não pede essa atitude, não requer belicosidade e muçulmanos podem ser pacíficos como em qualquer outra religião. Mas ela está correta em apontar que há aspectos dessa religião que levam a uma interpretação ruim.

O senhor percebeu no EI uma estrutura organizada e até profissional?

Sim. Por quase três anos eu vi tudo o que o EI produziu, os vídeos, propagandas. Existe um profissionalismo. O trabalho de design, fotografia, edição, é algo muito próximo do profissional. Mas ressalto uma coisa. As primeiras edições da Dabiq (revista de propaganda do grupo) foram um fenômeno, extraordinárias, mas isso durou um ano e depois começou a piorar. O declínio da revista, a piora na qualidade das imagens, o design mais monótono, mostra que a campanha militar contra o EI provavelmente matou muitos que eram responsáveis por fazer a revista.

Então a campanha militar contra o grupo na Síria e no Iraque está funcionando?

Sim, mas precisamos ser realistas sobre no que ela pode resultar. O EI chegou ao poder, mesmo sabendo que é uma organização fundamentalista religiosa, usando a insatisfação da população local, que era uma realidade. Essa insatisfação é política, com os governos locais. E o EI inspirou diversas pessoas ao redor do mundo, basta lembrar que há de 40 mil a 45 mil estrangeiros fazendo parte do EI. Esse número é surpreendente e a campanha militar não vai acabar com o ideal de quem acredita que o EI está do lado certo da história religiosa.

Como o senho analisa a função do líder do EI, Abu Bakr al-Bagdadi?

(Osama) Bin Laden estava envolvido nas operações da Al-Qaeda, dava ordens, os documentos mostram isso. Sobre Al-Bagdadi não há provas de que esteja envolvido com as operações. Nos olhos dos seguidores do grupo, ele é o primeiro califa que tem o poder legítimo. Mas se ele morrer outra pessoa assume seu lugar, ele não é endeusado.

O senhor acredita que os recentes ataques no Ocidente foram planejados ou foram uma mudança de estratégia em reação às derrotas na Síria e no Iraque?

Com certeza mudaram de estratégia. Houve um tempo em que eles deixaram bem claro para quem estivesse na Europa, por exemplo, 'se você puder vir para a Síria, venha, não ataque onde você está. Se você não pode vir, aí sim ataque onde está'. No meio de 2016, após a perda de território, eles passaram a dizer 'se você pode vir para a Síria, não venha. Ataque onde está'.

Ataques contra muçulmanos podem alimentar o EI?

O EI fala que os muçulmanos nunca serão bem recebidos no Ocidente e nunca poderão ser eles mesmos se não viverem no Estado Islâmico. Desse ponto de vista, ataques contra muçulmanos podem servir ao EI, para confirmar sua ideologia. No entanto, não vimos o EI usar o ataque em Londres (no qual um caminhão atropelou fiéis que saiam de uma mesquita) em sua propaganda, a Al-Qaeda fez isso. É preciso haver mais do que especulações sobre como os grupos vão usar esses ataques.

Como os governos podem evitar que estrangeiros se unam ao EI?

Os governos têm dividido informações de Inteligência e tentam impedir que os cidadãos viajem para o território do EI. No entanto, esse território não se estende mais apenas pela Síria e pelo Iraque, mas também para partes da Líbia, Paquistão, Afeganistão, Bangladesh, Filipinas, Arábia Saudita, leste da África. É impossível impedir que viajem para todos esses lugares. Precisamos ser realistas sobre o que esperar. Outro ponto é que o EI, além de uma organização territorial, um Estado em sua nomenclatura convencional, é um estado mental, uma ideia que colocam no coração das pessoas. E não há nada que se possa fazer para acabar com isso senão houver um trabalho para cortar essa inspiração. Ele não vai durar para sempre e não será sempre uma inspiração para esses devotos, mas é uma operação de longo prazo, com o lado militar e, sim, o lado religioso atuando. 

 

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