EI faz avanços políticos com agressão e persuasão

Enquanto repelem os ataques da coalizão liderada pelos EUA, combatentes do Estado Islâmico usam duas estratégias para crescer no Iraque e na Síria

ANNE BARNARD, TIM ARANGO, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2015 | 02h04

Dias depois de tomar a cidade de Palmyra, no deserto sírio, militantes do Estado Islâmico (EI) explodiram a notória prisão de Tadmur, usada pelo governo sírio para deter e torturar presos políticos. A demolição fez parte da estratégia do grupo extremista de se posicionar como defensor dos muçulmanos sunitas que se sentem perseguidos pelos governos apoiados pelos xiitas na Síria e no Iraque.

O EI conseguiu avançar apesar dos ataques aéreos liderados pelos EUA usando uma mistura de persuasão e violência. Isso lhe permitiu se apresentar como o único guardião dos interesses sunitas em partes do Iraque e da Síria.

Ideologicamente unificado, o EI está se destacando como um movimento social e político em muitas áreas sunitas, preenchendo um vazio na falta de uma identidade nacional sólida e de segurança. Ao mesmo tempo, ele reage brutalmente a qualquer outro grupo sunita, militante ou civil, que desafie sua supremacia.

Esta dupla estratégia, que pretende representar interesses sunitas e atacar qualquer grupo que queira fazer o mesmo papel, permitiu-lhe crescer em meio a uma redução dos ataques aéreos. Embora o governo de Barack Obama tenha se concentrado em enfrentar militarmente o EI, especialistas dizem que as vitórias recentes do grupo apontam para a necessidade de um componente político na estratégia para se contrapor ao grupo.

"Eles estão se apropriando de demandas legítimas", disse Ibrahim Hamidi, um jornalista e analista político da província síria rebelde de Idlib sobre o EI. Há muito que Hamidi vem defendendo que, sem uma ação internacional contundente contra o presidente sírio, Bashar Assad, e um programa político para capacitar sunitas, o apoio aos extremistas aumentará. "Isso é parte do que os torna tão perigosos", disse. "Derrotá-los requer uma abordagem abrangente."

Os sunitas constituem uma maioria prejudicada na Síria, onde a repressão do governo Assad, apoiado pelo Irã xiita, a um levante sunita, desencadeou uma guerra. E são uma minoria prejudicada no Iraque, onde os xiitas são mais numerosos, após anos de violência sectária entre milícias sunitas e xiitas.

Mas pouco foi feito para dar um maior papel para sunitas em sua própria governança. Assad continua no poder, respaldado pelo Irã e pelo grupo militante Hezbollah. E autoridades americanas estão travando uma árdua batalha para persuadir os sunitas no Iraque a combaterem o EI ao lado do governo central liderado por xiitas e milícias apoiadas por iranianos.

Isso deixou alguns sunitas dispostos a tolerar o EI em áreas onde eles não têm outro defensor. Os analistas ressaltaram que a maioria dos sunitas não apoia a interpretação do Islã feita pelo EI, ou sua brutalidade, mas alguns estão se tornando mais suscetíveis a sua conversa política sobre proteger sunitas oprimidos.

No Iraque, o EI foi em grande parte engolido pela insurgência sunita pré-existente. Ele tem raízes mais profundas ali, tendo crescido da Al-Qaeda no Iraque que surgiu da resistência aos EUA após a invasão de 2003.

Em 2006, o Iraque ficou enredado numa guerra civil, com milícias sunitas e xiitas realizando ataques sectários a civis. Agora, algumas dessas milícias xiitas estão entre as forças mais efetivas no terreno após o colapso parcial do Exército. Mas tem havido relatos de matanças por vingança de milícias, e alguns sunitas confiam tão pouco nelas que preferem o EI.

A situação na Síria é similar, de certa maneira, com Assad dependendo de apoio do Irã e de milícias apoiadas pelos iranianos. Mas o EI enfrenta desafios maiores para ganhar apoio popular na Síria, onde sua liderança iraquiana é vista como estrangeira e onde resta uma coleção significativa de grupos insurgentes sunitas adversários tanto do EI quanto do governo.

Washington está tentando recrutar alguns desses grupos rivais para serem treinados e equipados como linha de frente contra o EI na Síria, mas o programa é pequeno, com apenas 90 combatentes na primeira rodada de treinamento - e recrutar é um desafio, pois a maioria dos insurgentes sírios coloca como prioridade o combate a Assad.

O EI fez mais incursões em áreas onde ele ou o governo expulsaram forças insurgentes alternativas. Foi esse o caso em Palmyra, a primeira cidade que o grupo tomou diretamente de forças do governo, que havia esmagado uma rebelião ali em 2012.

Rami Jarrah, um ativista antigoverno que também se opõe ao EI disse que o grupo obteve uma vitória com a destruição da prisão de Tadmur. O local tem ressonâncias poderosas em todo o espectro de adversários de Assad, de comunistas seculares a radicais sunitas acusados de integrar uma insurgência da Irmandade Muçulmana que foi esmagada nos anos 80.

Os sírios que perderam entes queridos nos abusos cometidos nos governos de Assad e de seu pai, Hafez Assad, agora podem sentir que, apesar de as potências globais terem ignorado seus pedidos de ajuda, "a justiça foi feita pelas mãos de militantes extremistas", escreveu Jarrah no Facebook.

Depois dos avanços recentes do EI, Washington está improvisando com táticas e armas. Mas o apoio militar americano tem limites, dado a fraqueza do Exército iraquiano que, por sua vez, reflete as divisões no Iraque.

"O EI só pode ser realmente derrotado pelos sunitas no Iraque", disse Emma Sky, uma britânica que foi consultora política dos militares americanos no Iraque. Foi o que ocorreu em 2006, quando os militares americanos estabeleceram o programa Despertar, pagando tribos sunitas para mudar de lado e combater a Al-Qaeda no Iraque e a insurgência sunita.

Os EUA, incapazes de agir unilateralmente como fizeram em 2006, estão pressionando o governo iraquiano para armar tribos sunitas para combater o EI, mas pouco aconteceu diante das objeções dos líderes xiitas de linha dura. Há também uma relutância entre sunitas de combater o EI, pois muitos não acham que ser governados por Bagdá é algo pelo qual vale a pena lutar

Alguns sunitas iraquianos, tendo visto o que ocorreu com o Despertar, agora adotam uma atitude cautelosa. Pensada como um esforço para capacitar a comunidade sunita, o Despertar desmoronou porque o governo iraquiano liderado por xiitas jamais cumpriu as promessas de pleno emprego aos combatentes do Despertar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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