Mohammed Wesam/AFP
Mohammed Wesam/AFP

EI sequestra ocidentais para vingar Guantánamo, diz ex-refém

Javier Espinosa, jornalista espanhol que ficou 194 dias em cativeiro na Síria, afirma que grupo terrorista pretende reproduzir práticas da prisão americana no território que domina

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

17 Março 2015 | 11h43

PARIS - O grupo terrorista Estado Islâmico (EI) pretendia vingar-se dos Estados Unidos aos sequestrar jornalistas e trabalhadores de organizações humanitárias ocidentais, criando uma "Guantánamo" no território da Síria. A afirmação foi feita pelo jornalista espanhol Javier Espinosa, correspondente de guerra do jornal El Mundo, que permaneceu 194 dias em cativeiro até março de 2014, ao lado de 23 reféns ocidentais capturados na região de Alepo, no norte do país. 

Espinosa publicou no domingo, 15, a reportagem A efêmera Guantánamo islamista, seu primeiro relato sobre o período em que ficou em cativeiro na Síria. O testemunho foi confirmado por outro jornalista espanhol, Marc Marginedas, que também ficou preso no mesmo período. Os dois foram colegas de James Foley, cinegrafista americano e primeiro decapitado pelo grupo terrorista em frente às câmeras, entre outros reféns mortos desde o ano passado. Mas seus destinos foram diferentes: eles foram libertados após pagamento de resgate há um ano. 

Até então, Espinosa e Marginegas não haviam publicado textos a respeito do período de sequestro porque o EI ameaçava matar reféns em caso de publicação de matérias jornalísticas. No domingo, Espinosa afirmou que o projeto dos jihadistas era "estabelecer uma Guantánamo islamista, repleto de reféns ocidentais", na região de Azaz, no norte da Síria, na província de Alepo.

Segundo o repórter, os reféns eram alvo de torturas também praticadas na prisão de Guantánamo, mantida pelos Estados Unidos, como a prática de "waterbording", a ameaça de afogamento. Uma das principais vítimas da prática foi James Foley, segundo o jornalista espanhol. Antes de ser assassinado, o cinegrafista também teria feito referências em conversas ao projeto do EI de reproduzir na Síria as práticas da prisão americana mantida em Cuba. "Eles tinham este projeto há muito tempo, segundo Foley. O sheik iraquiano (chefe dos guardas) nos explicou desde o início que eles queriam internar os ocidentais em uma prisão de alta segurança, com câmeras e muitos guardas", relatou Espinosa. "Ele nos disse que nós iríamos passar muito tempo porque nós éramos os primeiros a sermos capturados."  

Os presos também eram submetidos a espancamentos, privações de água e de alimentos e expostos ao frio intenso do inverno do Oriente Médio sem cobertores. "(A prisão do EI), como seu homólogo americano, era um coletânea de insanidades. Um universo que se regia por paranoias de um grupo de mascarados que diziam querer governar o mundo com uma lei islâmica e, no entanto, se preocupavam com assuntos mínimos, como os 'maus odores'", contou Espinosa.

O projeto fracassou, segundo o jornalista, quando grupos rebeldes laicos que lutavam contra a ditadura de Bashar Assad na região norte da Síria passaram a atacar o EI, obrigando-o a abandonar as instalações que eram utilizadas.

A guerra na Síria completou 4 anos na semana passada. Mais de 200 mil pessoas já morreram, segundo cálculos da Organização das Nações Unidas (ONU).

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