'El Bronco' levará México a votar?

Participação de candidatos independentes pode ser oxigênio para participação política dos cidadãos

O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2015 | 02h02

Perto de um painel que conta os dias até 7 de junho, dia de eleição no México, Pablo Livas, que trabalha como cabo eleitoral, diz que estava ansiando por mais opções políticas havia mais de uma década. "Não temos tido o governo que merecemos", diz ele.

Agora, um rápido olhar no boné de beisebol em sua cabeça revela seu novo sentimento de esperança. Nele está escrito: "Eu sou El Bronco".

Livas é um entre as dezenas de voluntários que apoiam o que se pretende ser o mais novo modelo de candidato político no México: o independente.

A disputa pelo governo no Estado de Nuevo León está animada com o primeiro candidato não filiado a um partido, Jaime Rodríguez Calderón, apelidado de El Bronco, que representa uma enorme ameaça para o Partido Revolucionário Institucional (PRI) no governo. Rodríguez Calderón ocupa o primeiro ou segundo lugar nas várias pesquisas, enfatizando a frustração generalizada da população com os líderes e a corrupção no governo.

Alguns esperam que a presença de candidatos independentes reforce o comparecimento dos eleitores às urnas e quem sabe possa até restaurar a fé na política. Rodríguez Calderón, numa entrevista em seu carro a caminho do quarto comício do dia, disse sentir que tem uma missão e por isso se candidatou.

Ele afirma que quer acordar o México. Nuevo León pode ser um exemplo para o México de derrota da política partidária. Essa é a primeira vez na história do país que em todos os Estados candidatos podem disputar governos, prefeituras, legislaturas estaduais e federais sem apoio de um partido.

Alguns, como El Bronco, têm uma longa história na política, enquanto outros são novatos. De qualquer maneira, não é fácil. Os independentes precisam reunir milhares de assinaturas para poder se candidatar. O financiamento de campanha é muito limitado e eles não têm o mesmo acesso à propaganda na TV e no rádio que os candidatos dos partidos. Mas a reforma constitucional que abriu caminho para os independentes é oportuna, já que escândalos de corrupção envolveram todos os três principais partidos nacionais.

Oito em cada 10 mexicanos não confiam nos partidos políticos, segundo pesquisa realizada em 2014 pelo Instituto Nacional Eleitoral (INE), coordenado pelo The College of Mexico. Essa desconfiança aumentou em 16 pontos porcentuais entre 2011 e 2014.

"No passado, os mexicanos diziam 'sabemos que esses políticos não são honestos, mas o que queremos é que sejam eficientes'", diz Duncan Wood, diretor do Mexico Institute no Wilson Center de Washington.

"Agora, aparentemente, se o candidato pertence a um partido, ele é parte do problema, não da solução."

Inúmeros escândalos abalaram o México nos últimos meses, desde o desaparecimento dos 43 estudantes no Estado de Guerrero até assassinatos que ocorreram no Estado do México e acusações de corrupção envolvendo a compra de uma casa pela primeira-dama mexicana.

No início do ano, ativistas, acadêmicos, artistas e líderes religiosos começaram a convocar os cidadãos para protestar contra a eleição de meio de mandato, não votando. Mas Jeffrey Weldon, diretor do departamento de ciências políticas no Instituto Autônomo de Tecnologia do México, espera que a abstenção seja menor em regiões onde há candidatos independentes na disputa. Votar nos independentes é um novo canal para as pessoas expressarem seus sentimentos antipartidários, afirmou.

Pedro Kumamoto, jovem candidato ao Legislativo do Estado de Jalisco, disse ao jornal El País que representa uma geração de descontentes com a política no México. Ele não aceita doações de campanha superiores a US$ 500 e declarou publicamente seu patrimônio, algo que somente 303 candidatos fizeram em 27 de maio entre os milhares que disputam cargos. Kumamoto tem um carro velho, US$ 560 no banco e declarou quase US$ 2 mil em obras de arte.

Os independentes, no entanto, enfrentam uma árdua batalha para financiar campanhas e chegar aos eleitores, diz Weldon. El Bronco dependeu fortemente de redes sociais, com vídeos e conversas com eleitores por Facebook e Twitter.

Entre os comícios, El Bronco vai a um restaurante local para um rápido almoço. Grava um endosso a um candidato à prefeitura local que concorre pelo Partido da Revolução Democrática e posa para fotos.

Como ocorre com qualquer iniciante na política, perguntas chegam aos montes. Um governador independente pode ser eficiente sem contar com aliados no Parlamento? Um parlamentar local ou federal independente pode ser algo mais do que simbólico? Pode ser realmente independente se antes ocupou um cargo por meio de um partido estabelecido?

David Martínez Segura, consultor da Via Ciudadana, grupo que ajudou os independentes em Nuevo León, diz que a participação do eleitor será a chave. Se El Bronco vencer, necessitará dos cidadãos para ser ativo, diz Martínez, algo que não acredita que ocorrerá. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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