'El Nacional', da Venezuela, tem papel até fim do ano

Editor-presidente do jornal venezuelano denuncia que estatal que concentra venda do insumo não faz negócio com sua empresa

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2014 | 02h03

Desde fevereiro, quando a Venezuela centralizou em uma estatal a função de importar papel para todas as publicações impressas do país, veículos de imprensa reclamam que não conseguem comprar o produto ou enfrentam dificuldades para adquiri-lo. O diário El Nacional, um dos maiores da Venezuela, que já diminuiu de tamanho e a tiragem em razão da crise, afirma ter papel para circular até o fim do ano.

Em entrevista ao Estado, o editor-presidente do Nacional, Miguel Henrique Otero, declarou que, após o Complexo Editorial Alfredo Maneiro ter assumido a distribuição de papel na Venezuela, seu jornal não conseguiu comprar "nenhuma bobina". "Tentamos mil vezes, mas não conseguimos comprar papel", disse, afirmando que a estatal vende o insumo somente "para os jornais amigáveis" com relação ao governo de Nicolás Maduro.

No fim de janeiro, o Nacional deixou de publicar mais de 40% de suas páginas, reduzindo sua edição para dois cadernos, para não fechar em razão da falta de papel. "Não é que diminuímos, tivemos de cortar. Não se pode produzir jornal se não há papel", disse Otero. Na época, jornais independentes reclamavam que o governo venezuelano, que controla o câmbio, não lhes concedia dólares para o pagamento de suas dívidas com os fornecedores do insumo.

"Nós conseguimos sobreviver com o papel que nos emprestaram os jornais do continente (Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Peru e México, pelo menos). Em meados de março, recebemos (dos veículos estrangeiros) uma quantidade de papel que está nos permitindo produzir jornais até dezembro. O governo, porém, não está permitindo que compremos papel diretamente. É uma situação muito angustiante, porque não há nenhuma abertura para comprar papel. Há uma empresa do governo que vende papel para os jornais considerados próximos ao regime."

Violência. De acordo com Otero, a Venezuela está "chegando ao ponto em que todas as estratégias utilizadas para silenciar a imprensa independente estão chegando a seu clímax".

"Já não é apenas a repressão, a utilização das leis e dos tribunais, a violência ainda maior é a compra de meios (de comunicação) e a impossibilidade de comprar o papel por parte dos jornais. A imprensa enfrenta condições muito ruins", disse, mencionando as vendas - desde que Maduro assumiu, em abril de 2013 - da TV Globovisión, do grupo de comunicação Cadena Capriles e do jornal El Universal, que mudaram sua linha editorial, deixando de criticar o governo, após trocarem de mãos.

No dia 9, o jornal mais antigo da Venezuela, El Impulso, de Barquisimeto, capital do Estado de Lara, anunciou que deixaria de circular por falta de papel. "Na situação atual, o Impulso comprou (papel) por duas vezes da corporação (Alfredo Maneiro). Na terceira vez, em agosto, fizemos uma nova solicitação e pedimos 150 toneladas, que é o meu consumo atual mensal, mas me mandaram um orçamento para 98 toneladas", disse Carlos Carmona, diretor do jornal.

Depois de certa "confusão", em que lhe disseram até que seu pedido não havia sido feito, Carmona escutou que somente receberia papel no dia 19, cinco dias após o término de seu estoque. "Então, tomei a decisão e anunciei publicamente: 'Fecho por falta de papel, porque não me dão papel'. Armou-se um grande alvoroço. Não sei quem resolveu o problema, o fato é que me venderam o papel."

De acordo com Carmona, porém, o fornecimento de papel para o Impulso não tem sido suficiente. "Estamos trabalhando com a corda no pescoço, com pouca quantidade (de papel), tanto que quase todas as semanas temos de repor estoque. Eu tinha antes papel para três ou quatro meses. Agora, tenho para nove ou dez dias."

Baixas. Carmona lembrou que, há dois anos e meio, o Complexo Editorial Alfredo Maneiro foi criado, inicialmente, para fornecer papel para os veículos do governo e, em fevereiro, a estatal passou a atender também 83 publicações impressas de pequeno porte, que integram a Câmara de Jornais da Venezuela. "Da noite para o dia, deram a essa corporação a incumbência de atender todo o mercado nacional."

O Instituto Imprensa e Sociedade da Venezuela (Ipys, na sigla em espanhol) tem recebido reclamações a respeito das dificuldades dos veículos impressos em adquirir papel desde agosto de 2013, quando as empresas de comunicação ainda podiam comprar o insumo de maneira mais independente. Segundo a organização, desde então, dez veículos impressos deixaram de circular - seis deles, definitivamente.

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