El Salvador e a 'política do milagre'

Dias atrás, dois sacerdotes graduados de El Salvador celebraram uma missa especial, em um presídio de uma pequena cidade rural. Entre os fiéis, retalhados comme il faut de tatuagens e cicatrizes, estavam a cúpula da Mara Salvatrucha, uma gangue das mais perigosas do Hemisfério Ocidental. Na ordem do dia, a penitência e juras de paz.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h02

Havia motivos para se dizer amém. El Salvador ensaia uma rara e espantosa trégua na guerra de quadrilhas que elevou a taxa de homicídios a febris 68 por 100 mil habitantes, uma das piores do mundo, ao lado de Guatemala (44 por 100 mil) e Honduras (82 por 100 mil). Até fevereiro, as autoridades recolhiam diariamente 14 cadáveres das ruas aguerridas do país. Hoje são 6 assassinatos ao dia, uma queda de letalidade de 59%.

Obra de Deus? Talvez não. Segundo uma investigação do jornal digital El Faro, a súbita paz salvadorenha é fruto de um pacto entre gangues rivais e chancelado pelo governo do presidente Maurício Funes. Registra-se que a queda recorde da violência coincide com a decisão, no mínimo curiosa, de transferir as cabeças do crime de um presídio de segurança máxima para uma penitenciária comum. Em troca da folga, as principais gangues do país, MS-13 e Mara-18, teriam selado um acordo de não agressão.

A reportagem causou alvoroço. O governo negou qualquer negociação com os criminosos. O cessar-fogo seria fruto do trabalho heroico da Igreja de evangelização atrás das grades. As gangues confirmaram o pacto de paz, mas negaram o combinado com o governo e ainda desmereceram o trabalho "irresponsável, tendencioso, perverso e pouco profissional" de El Faro.

O colunista acha que protestam demais. As "pandillas" (gangues) salvadorenhas são uma sofisticada máquina criminosa. São sócias minoritárias das violentas quadrilhas mexicanas que fazem da América Central o corredor preferido entre a droga sul-americana e os consumidores abastados do norte. A caminho aterrorizam civis, compram políticos e contaminam a Justiça, reavivando um fantasma latino mal sepultado.

Palco de ditaduras e insurgência marxista, El Salvador amargou 75 mil mortos durante os anos 80 e 90 e sofreu a fuga de um quarto da sua população. As pandillas de hoje têm suas raízes nesse êxodo, quando jovens fugiram da guerra ideológica para cair na guerra de gangues em Los Angeles e dezenas de outras cidades dos EUA. "Estuprar, controlar e matar" é o lema de uma sucursal "gringa" da globalizada MS-13.

Caçados e expulsos pela polícia americana, os bandidos voltaram para casa turbinados com armas de primeira e padrinhos internacionais. Seu retorno ameaça a tenra democracia centro-americana, onde a população acossada clama por medidas enérgicas. Mas quais?

Os presídios da região já são um barril de pólvora - 361 detentos morreram num incêndio em Honduras, em fevereiro, e outros 13 presos de outra penitenciária incendiada morreram na semana passada no país. Impressiona também a malograda "mano dura" mexicana contra o tráfico, que colheu 50 mil mortes desde 2006, mas não a paz. Hoje os líderes regionais reagem como podem, às vezes com remédios heterodoxos.

Guatemala acaba de eleger Otto Pérez Molina, um general da direita, mas ele surpreendeu ao se declarar favorável à legalização da droga para coibir o crime. Costa Rica, que aboliu as Forças Armadas, engordou o orçamento policial ao mesmo tempo em que propõe descriminalizar o consumo da droga.

Embora bem avaliado entre os eleitores, Funes viu desabar a popularidade de seu governo em meio à escalada da violência, enquanto seu partido perdeu assentos importantes nas recentes eleições legislativas. Pressionado, ele também teria recorrido à heterodoxia, firmando um pacto com o diabo? Ou, nas palavras de Carlos Dada, editor de El Faro, "será que o país está na mão da política do milagre?"

É COLUNISTA DO ESTADO,  CORRESPONDENTE DA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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