El Salvador teme conluio de gangues locais com tráfico vindo do México

Vinda de narcotraficantes do país vizinho preocupa salvadorenhos, que já convivem com altos índices de violência.

Julián Miglierini, BBC

21 de dezembro de 2010 | 08h12

Teme-se que as 'maras' se associem aos 'narcos' mexicanos

Um homem mostra sua camiseta com uma atitude desafiante: "Ninguém vai intimidar El Savador", lê-se em seu peito, em um anúncio do governo colocado em cartazes gigantes em distintas partes de San Salvador.

Os dizeres do cartaz - parte de uma campanha contra a violência - parecem adquirir um significado especial num momento em que muitos em El Salvador temem uma possível contaminação pelo conflito do narcotráfico no México.

O primeiro a levantar a voz de alerta foi o próprio presidente, Mauricio Funes, em abril passado.

"Temos a informação de que (os traficantes) entraram em El Salvador com fins exploratórios", disse Funes, referindo-se aos cartéis mexicanos, que, diante do que ele chamou de "efetividade da política" antidrogas do presidente mexicano Felipe Calderón, estavam buscando novas bases para suas operações.

Desde então, o possível avanço de cartéis como o dos Zetas em território salvadorenho e seu possível conluio com as gangues locais são seguidos atentamente pelas forças de segurança.

"Soubemos que os membros de gangues estão operando o transporte de drogas ou de dinheiro do narcocorredor que vai aos Estados Unidos passando pelo México", disse à BBC Mundo Douglas García Funes, chefe do centro regional de combate às gangues de El Salvador.

'Maras'

El Salvador é um dos três países do mundo com os maiores índices de homicídio per capita.

Grande parte dessa violência é atribuída às "maras", gangues nascidas entre imigrantes salvadorenhos em Los Angeles, na década de 1980.

O Exército é presença constante em partes do país

Desde então, com a deportação de vários deles à sua terra natal, as "maras" se transformaram no maior problema de segurança pública de El Salvador.

Estima-se que cerca de 15 mil jovens - homens e mulheres - pertençam a gangues no país. Algumas famílias já têm uma terceira geração de membros de gangues.

Os "mareros" têm o controle territorial de algumas zonas de El Salvador, e teme-se que a chegada de cartéis mexicanos ao país resulte em colaboração ou em confrontos.

Endurecimento

Em junho passado, um incidente forçou o Estado a endurecer o combate às gangues.

Na ocasião, um grupo incendiou um micro-ônibus cheio de passageiros em um distrito da capital. Dezessete pessoas morreram carbonizadas, no que o governo chamou de "ato de terrorismo".

Pouco depois, o governo Funes impulsionou uma severa lei "anti-maras", que criminaliza a afiliação a gangues e seu financiamento (geralmente via extorsões).

Mas essa lei ainda não está sendo aplicada em sua totalidade, por causa de um debate político sobre seu alcance.

Ao mesmo tempo, o governo alocou mais de 6 mil soldados - quase a metade do efetivo do Exército - em distintos pontos "quentes" do país, incluindo fronteiras e as zonas com maior presença de gangues.

Muitos interpretam esse endurecimento como uma preparação para a ameaça representada pelos cartéis mexicanos.

"Certamente há preocupação. Mas o que tentamos fazer é agir de forma preventiva", disse à BBC Mundo o chanceler salvadorenho, Hugo Martínez.

Crueldade

Talvez a pessoa em El Salvador que conhece melhor os extremos da violência seja Israel Ticas, técnico forense do Ministério Público do país.

Ticas faz a exumação de cadáveres em cemitérios clandestinos

Ele é o único funcionário a cargo da exumação dos cadáveres encontrados em cemitérios clandestinos onde as gangues enterram suas vítimas.

Ticas já encontrou 38 valas em todo o país.

Seu escritório, em San Salvador, está coberto de fotos de suas descobertas macabras, difíceis de digerir para um observador casual.

Torturadas, decapitadas, mutiladas, degoladas: a violência sofrida pelas vítimas das "maras" alcança níveis aterrorizantes.

Nos últimos anos, disse Ticas, as gangues "se sofisticaram" no modo como enterram suas vítimas. "Eles as escondem mais, e é mais difícil encontrá-las. Deixam um corpo mutilado em um lugar e a cabeça a 5 km dali."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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