'El Universal' sofreu baixas após venda a grupo estrangeiro

CARACAS - Fundado há 105 anos pelo poeta Andrés Mata e seu amigo Andrés Vigas, o jornal El Universal foi um dos mais severos críticos do chavismo até o ano passado, quando foi vendido. A família de Mata, que ainda mandava nos negócios, decidiu passar o diário adiante alegando não suportar as pressões econômicas e operacionais impostas pelo governo, incluindo uma restrição às autorizações cambiais - dólares eram usados diretamente pelo grupo para comprar papel-jornal.

Felipe Corazza, Enviado especial de O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h04

Vendido a um grupo espanhol que, até hoje, é tratado como uma entidade misteriosa pelos jornalistas que trabalham na redação do periódico, o Universal sofreu alterações radicais em sua linha editorial. O comando "de facto" da operação ficou a cargo de Jesús Abreu Anselmi, de 80 anos, engenheiro civil por formação.

Anselmi é irmão do fundador do Sistema Nacional de Orquestras Juvenis, José Antonio Abreu, maestro chavista de 75 anos. Desde a venda do jornal, baixas já ocorreram em áreas sensíveis. A mais notável delas, em visita à redação, fica na editoria de Economia. De dez profissionais que ali trabalhavam, restaram dois. A maioria pediu demissão quando o jornal passou às mãos do oficialismo.

Pouco tempo depois, veio a demissão da cartunista Rayma, que publicava diariamente charges contrárias ao governo. A saída de Rayma repercutiu na imprensa internacional, mas pelo menos outros 12 jornalistas - além dos 8 da Economia e da cartunista - deixaram o periódico por vontade própria após a "transformação".

Do lado chavista, situações de constrangimento são mais raras, mas tomam dimensões grandes quando vêm a público. Em maio do ano passado, o humorista opositor Luís Chataing foi demitido da emissora Televen por fazer piadas "de mau gosto" sobre o presidente Nicolás Maduro. A saída de Chataing pareceu apenas mais um episódio de combate entre chavismo e mídia, mas tomou vulto quando Vanessa Davies, militante histórica do Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv, de Maduro) e diretoria do jornal oficial Correo del Orinoco saiu em defesa de Chataing.

Vanessa deu declarações duras sobre o que considerava uma censura ao trabalho de Chataing por motivos políticos. "Não acredito que tantos anos de luta para transformar o país sejam para isso e defendo o direito de Luís, como telespectadora e como jornalista, mesmo que não tenhamos nada em comum." A diretora do Correo afirmou, na mesma declaração, saber que seu emprego corria risco por isso. Vanessa dirige o jornal até hoje.

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