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‘Ela caiu no chão e morreu’: a história da menina de 10 anos morta pelo Exército em Mianmar

Mais de 40 crianças foram assassinadas pelas forças de segurança do país desde o golpe em fevereiro; esta é a história de Aye Myat Thu

Hannah Beech, The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2021 | 10h00

MAWLAMYINE, Mianmar - No calor sufocante do verão, Soe Oo abriu um coco com seu facão. Mãos pequenas avançaram para pegar o primeiro pedaço, frio e escorregadio.

Sua filha de 10 anos, que sonhava ser maquiadora ou enfermeira, ou mesmo uma princesa com longos cabelos loiros como a do filme Malévola, a que assistiu milhões de vezes, saiu andando com seu doce prêmio.

Quando chegou até as árvores que marcam o perímetro da propriedade da família, ela tropeçou e caiu de barriga para baixo, lembrou seu pai. O pedaço de coco escorregou da sua mão, caindo na terra vermelha de Mawlamyine, cidade portuária num estreito arquipélago a sudeste de Mianmar.

Soe Oo disse que largou o facão e correu para dizer a ela que estava tudo bem, que ela ganharia um outro pedaço do coco. Ele a levantou, pegou-a nos braços, mas não percebeu todo o sangue que jorrava, porque ela não emitia uma palavra.

A bala atingiu a têmpora esquerda de Aye Myat Thu. Eram 5h30 de uma tarde cálida do dia 27 de março. Quando a noite caiu, menos de uma hora depois, a garota estava morta.

Desde o golpe de primeiro de fevereiro e a prisão dos líderes civis do país, o Exército de Mianmar, conhecido como Tadmadaw, vem matando, atacando e prendendo impunemente. Mais de 540 pessoas foram mortas nas ruas e em suas casas por soldados ou policiais, segundo um grupo de monitoramento.

Pelo menos 40 eram crianças com menos de 18 anos de idade, segundo um levantamento feito pelo New York Times junto a médicos, funerárias e familiares. Algumas foram mortas por participarem dos protestos. Muitas apenas observavam e aparentemente foram executadas com um tiro na cabeça.

As crianças com frequência foram mortas quando seguiam sua vida do dia a dia, brincando ou junto com suas famílias, em cidades grandes e cidadezinhas assoladas pelo terror. Algumas não fizeram nada mais ameaçador nos seus momentos finais do que buscar o conforto do colo de um pai, servir chá, buscar água ou correr com um pedaço de coco na mão.

“Não tenho poder para me vingar dos soldados que mataram minha filha”, disse Toe Toe Lwin, mãe de Aye MyatThu. “Tudo o que posso é esperar que a vez deles chegue logo”.

O assassinato de crianças ofuscou a violências de repressões militares anteriores, horrorizando uma nação acostumada com o uso de força máxima pelo Exército contra civis pacíficos. E intensificou a determinação de um movimento de protestos em massa e desobediência civil que mostra poucos sinais de arrefecimento face aos franco-atiradores e lançadores de granadas do Exército.

Na semana passada um enviado especial das Nações Unidas para Mianmar alertou o Conselho de Segurança de que “um banho de sangue é iminente” e que “o país inteiro está à beira de se transformar num Estado falido”.

Em Mawlamyine - conhecida por seus pagodes budistas e citada às vezes por seu antigo nome, Moulmein, num poema de Rudyard Kipling e num ensaio de George Orwell, os protestos começaram uma semana depois do golpe. E quase todos os dias as pessoas se reúnem, com manifestantes protestando às vezes nos barcos no porto ou em frotas de motocicletas.

Os familiares de Aye Myat Thu não são politicamente ativos. Há quatro anos, quando as pessoas de Maulamyine protestaram contra o nome dado a uma ponte homenageando um general de outro Estado, eles mantiveram silêncio. Uma década antes, quando monges lideraram protestos contra a junta militar, eles permaneceram em casa. O mesmo ocorreu em 1988, época das manifestações pró-democracia, quando o Exército abateu milhares de pessoas no país inteiro.

Desta vez foi diferente. Soe Oo é lustrador de móveis. As duas filhas mais velhas - Aye Myat Thu era a quarta de cinco crianças - trabalham uma como professora e outra em seu próprio salão de beleza. Havia uma sensação de melhora da condição social num país outrora atolado numa mistura economicamente desastrosa de socialismo e numerologia, que dava tratamento preferencial a um dígito favorito do comandante da junta (num certo momento, quando as cédulas de dinheiro em múltiplos de nove substituíram as notas convencionais, parte das economias de Mianmar evaporou).

Pela primeira vez, talvez, a família sentia que tinha alguma coisa a perder. E a tia de Aye participou dos protestos contra o golpe em favor da “revolução”.

Em 20 de março, com o número de mortes aumentando, alguns moradores de Mawlamyine realizaram protestos criativos, para se manterem a salvo. Em vez de irem pessoalmente para as ruas, reuniram animais de pelúcia postando fotos deles na mídia social. Entre eles o ursinho Puff e os porquinhos, o super-gato robô japonês Doraemon e uma minúscula tartaruga, com um cartaz que dizia “queremos democracia”.

Uma semana depois as temperaturas aumentaram em Mawlamyine. As pistas asfaltadas tremeluziam. Um vento quente vinha do Mar Andaman. Era o dia das Forças Armadas em Mianmar e o ministro Aung Hlaind, comandante do Exército e instigador do golpe, presidia a parada militar pelas ruas da capital, Naypytaw.

Nesse dia, em todo o país, as forças de segurança mataram pelo menos 114 pessoas, entre elas sete crianças. Em Yangon, a maior cidade de Mianmar, uma bebê ficou meio cega por uma bala de borracha que atingiu seu olho.

Desta vez em Mawlamyine os manifestantes protestaram. Trezentas pessoas se reuniram sob o sol escaldante, por trás de barricadas feitas com sacos de areia. Alguns usavam capacetes para enfrentar os cerca de 100 soldados das forças de segurança. No início as balas eram de borracha, mas à tarde eram tiros reais.

Os manifestantes se dispersaram, mas dois foram mortos.

Ninguém sabia porque os soldados invadiram o bairro de Aye Myat Thu, formado de casas de madeira em várias cores, com as flores de primavera deixando-as mais coloridas.

Soe Oo pegou um coco da árvore e o partiu cuidadosamente, para não deixar a água escorrer.

Aye Myat Thu pegou seu pedaço. Ruídos de estalidos a levaram a andar para ver o que ocorria. Atrás das árvores, alguém camuflado a atacou, segundo moradores. Ninguém da família viu o atirador.

O buraco da bala era tão pequeno que Soe Oo disse que não conseguiu entender como havia tirado a vida da sua filha, mais uma vítima ao acaso de um Exército rápido no gatilho.

“Ela simplesmente caiu, e morreu”, disse ele. /Tradução de Terezinha Martino

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