Laetitia Vancon/The New York Times
Laetitia Vancon/The New York Times

Ela denunciou uma ameaça neonazista. Mas os neonazistas estavam dentro da polícia

Ameaças de morte ligadas a computadores da polícia e a descoberta de grupos da extrema-direita em delegacias na Alemanha alimentam preocupações de infiltração da direita radical nesses órgãos

Katrin Bennhold / The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2020 | 05h00

FRANKFURT, Alemanha - Viajando a trabalho e distante de casa, Seda Basay-Yildiz recebeu um fax assustador no hotel em que se hospedava. “Sua turca asquerosa, vamos matar sua filha”, era a mensagem. Advogada de defesa descendente de tucos, especializada em casos de terrorismo contra islâmicos, Seda Basay-Yidiz estava acostumada a ameaças de pessoas da extrema-direita, mas a mensagem que recebeu naquela noite de agosto de 2018 era diferente.

Assinada com as iniciais de um antigo grupo terrorista neonazista, ela foi enviada ao seu endereço que não está disponibilizado publicamente por causa de ameaças que recebera anteriormente. Mas quem enviou o recado desta vez teve acesso a um banco de dados protegido pelo Estado.

“Sabia que tinha de levar o caso a sério. Eles tinham meu endereço, sabiam onde minha filha vive. Então, pela primeira vez, chamei a polícia”, disse.

Achou que se sentiria mais segura: mas uma investigação feita logo depois mostrou que a informação havia sido obtida num computador da polícia. O extremismo de extrema direita vem ressurgindo na Alemanha com roupagens novas e antigas, aterrorizando um país que se orgulha de ter confrontado honestamente seu passado homicida.

Este mês, uma investigação parlamentar que durou dois anos concluiu que redes de extrema-direita penetraram exaustivamente nos serviços de segurança alemães, se infiltrando mesmo em suas forças especiais de elite.

Mas o foco é cada vez maior na polícia alemã, uma força muito mais espalhada e descentralizada e submetida a uma fiscalização menos rigorosa do que o Exército e com um efeito mais imediato sobre a segurança cotidiana dos cidadãos, é o que alertam os especialistas.

Após a 2.ª Guerra, a maior preocupação dos Estados Unidos, seus aliados, e da própria Alemanha, era de a força policial do país nunca mais ser militarizada ou politizada e usada como um cassetete por um Estado autoritário.

O policiamento foi fundamentalmente reformulado na Alemanha Ocidental depois da guerra e os jovens que ingressam na corporação hoje aprendem, em detalhes, sobre o legado vergonhoso da polícia à época nazista e como isso deve informar sua missão e o policiamento nos dias atuais.

Mas a Alemanha tem sido acossada por revelações de policiais em diferentes pontos do país formando grupos com base na ideologia de extrema-direita.

“Sempre acreditei que eram casos individuais, mas hoje são muitos grupos”, disse Herbert Reul, ministro do Interior da Renânia do Norte-Vestefália, o Estado mais populoso da Alemanha, onde 203 policiais vêm sendo investigados por envolvimento em incidentes de extremistas de direita.

Para Reul, o alarme soou em setembro, quando ficou comprovado que 31 policiais no seu Estado haviam difundido propaganda neonazista violenta. “Era quase uma unidade inteira e nós descobrimos por acaso”, disse ele numa entrevista. “Isso me deixou chocado. Não é um fato trivial.”

“Temos um problema com a extrema direita radical. Não sei até que ponto ela entrou nas instituições. Mas se não resolvermos isto, só vai crescer.”

E vem crescendo a cada mês. Os 31 policiais foram suspensos em setembro por terem compartilhado fotos de Hitler, memes de um refugiado numa câmara de gás e um negro sendo alvejado a tiros. O líder da corporação também fazia parte do grupo.

O foco tem sido mais forte no Estado de Hesse, região natal de Basay-Yidiz, que vive em Frankfurt, e de muitas outras pessoas conhecidas alvo de ameaças de neonazistas.

Ela ficou famosa quando representou, como advogada, a família de um vendedor de flores turco que foi morto a tiros em sua barraca de flores numa rua. Ele foi a primeira vítima do chamado National Socialist Underground, USU, grupo terrorista neonazista que matou dez pessoas, nove imigrantes, entre 2000 e 2007.

Os agentes de polícia em toda a Alemanha acusam os imigrantes, e não reconhecem que os que cometeram os crimes são neonazistas, ao mesmo tempo em que informantes do serviço de inteligência pagos ajudaram a ocultar os líderes do grupo. Arquivos sobre os informantes foram destroçados pelo serviço de inteligência dias depois de a história se tornar pública em 2011.

Depois de um processo de cinco anos que terminou em 2018, Basay-Yidiz conseguiu que seus clientes recebessem uma modesta indenização, mas não o que eles mais esperavam: respostas.

“Qual o tamanho dessa rede e o que as instituições do Estado sabem?” indaga a advogada. “Depois de um julgamento que durou 438 dias, ainda não sabemos.”

Três semanas depois de encerrado o processo, ela recebeu a primeira ameaça por fax. E desde então não parou. Basay-Yidiz representa exatamente o tipo de mudanças ocorridas na Alemanha que a extrema-direita odeia.

Mas ela não é a única. Computadores da polícia em Hesse foram usados para recolher dados de um comediante turco-alemão, Idil Baydar, como também de uma política de esquerda, Janine Wissler. Ambos receberam ameaças. O presidente da polícia do Estado não deu informações sobre as ameaças durante meses. Ele teve de se demitir em julho.

Muitas das ameaças foram feitas por e-mails assinados como NSU-2.0. Ao todo são 77 casos examinados de extremismo de direita entre os agentes da polícia desde 2015. Este ano foi nomeado um investigador especialmente para analisar apenas as ameaças por e-mail.

Quando os investigadores descobriram que informações sobre a advogada foram baixadas de um computador da primeira delegacia de Frankfurt uma hora e meia antes de ela receber a mensagem, o policial que estava logado no computador naquele momento foi suspenso. Foi feita uma busca em toda a delegacia, computadores e celulares foram analisados, levando à suspensão de mais cinco agentes. No final, o número deles aumentou para 38.

Mas a advogada não ficou tranquila. “Se 38 pessoas estão envolvidas, este é um problema estrutural. E se você não tomar consciência disto, nada vai mudar.”

Mais apavorante do que as ameaças, disse ela, é a sensação cada vez mais premente de que a polícia está protegendo os policiais extremistas.

As ameaças continuaram chegando em espaços de meses, às vezes semanas. Ela se mudou com a família para outro bairro da cidade. Seu novo endereço estava mais protegido do que o anterior. Os computadores da polícia não podiam mais ser vasculhados. Durante 18 meses ela se sentiu mais segura.

Mas no início deste ano isso mudou. A pessoa que a estava ameaçando descobriu seu novo endereço e fez questão de ela ser informada sobre isto. Desta vez a polícia disse que o seu endereço não havia sido acessado internamente.

Em 11 de novembro, Seda Basay-Yildiz recebeu a última ameaça, uma mensagem que começava como “Heil Hitler!” e terminava com “Diga alô à sua filha da minha parte”.

Quando reportou o caso à polícia, a informação que obteve foi de que ela e sua filha não corriam nenhum risco concreto.

“Mas como confiar nisso. A insegurança é grande. Em quem posso confiar? E a quem recorrer se não posso confiar na polícia?” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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