Sui-Lee/NYT
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Ela foi agredida pelo marido e o caso chocou a China, mas a Justiça negou seu pedido de divórcio

Liu Zengyan precisou pular do segundo andar de uma loja para sobreviver ao espancamento

Sui-Lee Wee, The New York Times

18 de setembro de 2020 | 04h00

Marido e mulher estavam sozinhos na loja dela, mas as câmeras de segurança gravaram tudo: ele a derrubou, a encheu de socos e tapas e a arrastou pelo chão segurando-a pelos cabelos.

Em gravações do ano passado, que recentemente circularam on-line, ele é visto arrastando-a para outro cômodo. Minutos mais tarde, a mulher, despenteada, despenca do segundo andar de um prédio na cidade de Shangqiu, na região central da China. A mulher, Liu Zengyan, disse mais tarde que foi a única maneira que encontrou para escapar do marido.

No hospital, depois do ataque, com fraturas na cintura, tórax e na cavidade ocular, os membros inferiores temporariamente paralisados, Liu disse que estava determinada a deixar o o homem para sempre. Mas o tribunal se recusou a conceder o divórcio.

O caso de Liu deflagrou um debate em toda a nação a respeito dos dois maiores problemas que enfrentam as mulheres na China: o predomínio da violência doméstica e as dificuldades para obter justiça em um sistema legal sistematicamente contrário a elas.

Uma pesquisa realizada pela Federação das Mulheres Chinesas em 2011 mostrou que cerca de 1 em cada 4 mulheres sofreu violência física ou verbal, ou teve liberdades limitadas por seus parceiros. Mas grupos de ativistas, citando entrevistas com mulheres vítimas de abusos, calculam que os números são muito maiores, principalmente depois que milhões delas foram impedidas de sair durante a pandemia.

Embora a China tenha introduzido uma lei contra a violência doméstica em 2016, as penas são mínimas. O estupro pelo marido continua legal, e as mulheres afirmam que as ordens para restringi-lo raramente são cumpridas.

O próprio divórcio está se tornando mais difícil, e o governo impôs um “período para o casal acalmar” de 30 dias aos casais que tentarem se separar a partir do próximo ano. Os legisladores, alarmados pelo aumento do número de divórcios no país, afirmam que a nova lei impedirá que os casais se separem de maneira tão precipitada, mas segundo os defensores dos direitos das mulheres, ela fará com que as pessoas fiquem prisioneiras por mais tempo em casamentos violentos.

Os problemas de Liu, de 24 anos, começaram um ano depois do casamento em 2017, com seu namorado do colegial, Dou Jiahao, de 23. Durante o namoro, ele a tratava muito bem, contou Liu em uma entrevista. Depois, Dou perdeu mais de US$ 7.200 no jogo e, quando voltou para casa, a espancou.

“Naquela primeira vez, não chamei a polícia porque não classifiquei o seu comportamento como violência doméstica”, afirmou. “Na época, a frase ‘violência doméstica’ ainda não havia se fixado na mente das pessoas”.

Liu deixou Dou por mais de um mês, mas ele pediu desculpas e pediu que ela voltasse. Liu disse que decidiu ficar com ele porque o filho, que agora tem quase 3 anos, era ainda um bebê.

Em julho de 2019, ela se queixou com a sogra de que Dou ficava fora a noite toda jogando. A sogra passou um sermão no filho, que se enfureceu e a agrediu com tapas e socos, contou.

Embora Liu ainda achasse que não tinha provas suficientes para ir à polícia, decidiu que estava na hora de acabar com o casamento. Mas antes que pudesse fazê-lo, ocorreu a terceira agressão.

Em agosto de 2019, Dou ficou furioso depois que a mãe o repreendeu na frente dos amigos enquanto ele jogava. Liu disse que a sogra, alarmada com a fúria do filho, enviou uma mensagem para ela: “Tranque a porta e fuja depressa”.

Liu foi para a casa da mãe mãe naquela noite. Mas seis dias depois, voltou para a sua loja, pensando que o marido estava fora da cidade. Ao contrário, ele no local alucinado, jogou Liu no chão, a cobriu de tapas, jogou o seu celular, e disse que iria matá-la.

A única maneira de parar a agressão, disse Liu, era pular pela janela. O vídeo da câmera de segurança mostrou Dou saindo tranquilamente e olhando com curiosidade para a janela do apartamento enquanto os transeuntes, consternados, tentavam ajudar Liu.

“Pode-se ver que ele se tornou praticamente um psicopata”, disse Liu, que usa uma cadeira de rodas durante a recuperação. “Ele me batia para realizar o seu desejo de violência”.

Dou, que está em custódia da polícia agora, não pôde ser ouvido para comentar o fato. Liu contou que os pais dele mudaram o número do celular e não há nenhum modo de entrar em contato com eles. O advogado dela disse que não tem informações sobre o advogado de Dou.

Foi somente nos últimos anos que a violência doméstica passou a ser considerada um problema grave na China, onde as leis são feitas e aplicadas em grande parte pelos homens, e as famílias são desencorajadas a divulgar os seus problemas em público. Vários casos ocorridos nas classes mais altas chamaram a atenção para a questão e uma cidade do leste da China começou recentemente a permitir que, antes de casar, as pessoas investiguem se os seus parceiros têm antecedentes de violência.

Mas as vítimas muitas vezes encontram a resistência do sistema legal, que pode desestimulá-las a procurar ajuda. Embora a lei chinesa sobre casamentos especifique que a violência doméstica é razão suficiente para o divórcio, muitos tribunais encorajam os casais a tentar uma reconciliação em nome da harmonia social e familiar.

Depois da terceira agressão, familiares do marido tentaram convencer Liu a ficar com ele com a promessa de um carro e de um apartamento, ela contou. Liu recusou, e eles pararam de pagar suas despesas médicas.

Ela também encontrou escassa simpatia quando denunciou o marido à polícia. Os policiais lamentaram a queda por causa dos ferimentos, ela disse, e um painel forense considerou Dou responsável apenas pela fratura da cavidade ocular, descrevendo-a como “leve ferimento”, de acordo com uma cópia do relatório ao qual o The New York Times teve acesso. Inúmeras tentativas de contato com a polícia resultaram vãs.

Uma segunda avaliação, em novembro de 2019, concluiu que Dou havia provocado a Liu um ferimento "menor de grau um”, elevando-o a caso criminal. Ele foi detido em março e acusado de causar os danos intencionalmente.

Em junho, Liu pediu o divórcio no tribunal do Condado de Zhecheng na província de Henan, mostrando a agressão na butique como prova. O tribunal negou o seu pedido, afirmando que Dou não concordava com o divórcio e que eles teriam de procurar uma arbitragem. Liu foi informada de que não poderia conseguir o divórcio enquanto o caso criminal contra seu marido continuava pendente.

“Nunca me ocorreu que os tribunais não me concederiam diretamente um divórcio na primeira audiência”, disse Liu.

Na tentativa de pressionar o tribunal, Liu mostrou o vídeo do espancamento no WeChat, rede social predominante na China.

Milhares de usuários uniram-se em sua defesa, e uma hashtag sobre o seu caso foi visualizada mais de 1 bilhão de vezes, no site de microblogging Weibo. Logo se seguiram entrevistas para o noticiário.

Não muito depois, um juiz convocou Liu para dizer que não haveria necessidade de uma arbitragem e que o tribunal daria um veredito em breve. No dia 28 de julho, três semanas depois de divulgar o vídeo, ela recebeu o divórcio. “Estou tão feliz”, comentou, enquanto se preparava para reabrir a butique depois de uma reforma. “Finalmente consegui o que queria”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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