Mary-Elizabeth Gifford via The New York Times
Mary-Elizabeth Gifford via The New York Times

Elas sobreviveram à gripe espanhola, à Grande Depressão e ao Holocausto

Ao longo de suas vidas, Naomi e Eva demonstraram um lado destemido habilmente cultivado pelos infortúnios

Ginia Bellafante / The New York times, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 17h08

NOVA YORK — Para a maioria das pessoas, é quase impossível compreender a ferocidade e a regularidade com que a vida foi virada de pernas para o ar durante a primeira metade do século 20. Pragas e conflitos foram deflagrados em escala épica, de novo e de novo. Perdas e restrições eram parte do cotidiano: o desastre era uma época em si.

Aos 101 anos, a poeta e ativista dos direitos trabalhistas Naomi Replansky sobreviveu a tudo isso. Nascida no apartamento da família em East 179th Street, no Bronx, em maio de 1918, a chegada dela ao mundo coincidiu com o início da gripe espanhola.

A epidemia de influenza do início do século, que custou milhões de vidas, muitas delas de crianças com menos de 5 anos, não foi uma emergência de saúde pública isolada. Nova York teve uma epidemia de pólio em junho de 1916. 

Naquele ano, duas mil pessoas morreram dessa doença na cidade. Muitos dos sobreviventes tinham memórias bem vivas do surto de febre tifóide que tomou conta da cidade nove anos antes.

Antes do uso da vacina contra a pólio, a partir dos anos 50, havia surtos da doença em algum lugar dos Estados Unidos quase todos os anos, na primavera. As reuniões eram canceladas, os ricos da cidade grande partiam para o interior. No início dos anos 20, a irmã mais nova de Naomi adoeceu, tendo como sequela a paralisia de uma das pernas.

A mãe delas depositou suas esperanças nas terapias aquáticas desenvolvidas por Franklin Roosevelt em Warm Springs, Geórgia, mas foi em vão. “Era bom para o ânimo, um lugar alegre", disse-me Naomi recentemente, “mas não era uma cura".

Mais tarde, quando ela tinha 12 anos, o irmão, de 15, teve mastoidite. Na falta de antibióticos para o tratamento, ele morreu rapidamente em decorrência do que é essencialmente uma infecção no ouvido.

Há dois finais de semana, quando os nova-iorquinos começavam a se dar conta da enormidade da crise atual, Naomi e sua mulher, Eva Kollisch, de 95 anos, estavam em casa no apartamento de um quarto no Upper West Side, em Manhattan, ouvindo um vinil de Marian Anderson. Era o álbum Spirituals’, e elas estavam na companhia de uma das cuidadoras de sempre.

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Não estavam perturbadas. “O confinamento não me incomoda", escreveu Naomi por e-mail. “Meu corpinho frágil aguenta outra dose de confinamento.”

Naomi e Eva foram apresentadas uma à outra por Grace Paley durante uma leitura de sua obra nos anos 80. Já tinham passado da meia idade, deixando para trás as tragédias e perturbações sociais das décadas anteriores, que as tocaram tão intimamente.

Quando a catástrofe vem em sequência, os sobreviventes acabam treinados para receber o terror com a serenidade dos iluminados.

Eva e Naomi sofreram com o antissemitismo ainda novas. Eva, criada em uma família de ricos intelectuais judeus dos arredores de Viena, lembra de ter apanhado de um grupo de crianças por ser uma “judia imunda’’ quando tinha 6 anos. 

Durante a infância no Bronx, Naomi ouvia os programas de rádio fascistas do padre Coughlin, que sempre emanavam das janela abertas de East Tremont durante o verão.

Os avós dela tinham fugido dos pogroms na Rússia, vindo aos Estados Unidos na virada do século quando os hábitos dos imigrantes — considerados sujos e ignorantes — eram continuamente responsabilizados pela disseminação de doenças.

A primeira das reviravoltas na vida de Eva veio com a guerra. Um ano após a anexação da Áustria pelos nazistas, em 1939, ela fugiu por meio do Kindertransport, uma série de esforços de resgate que trouxeram crianças judias para lares britânicos. Eva, então com 13 anos, viajou com os irmãos primeiro para os Países Baixos, de trem, e depois de navio até a Inglaterra.

“Quando chegamos à Holanda, foi incrível ver pessoas gentis na plataforma do trem’’, disse Eva certa vez a uma entrevistadora de um projeto de história oral feminista. “Eles sorriam e nos ofereciam suco de laranja.”

 

No início, ela encarou tudo como uma aventura. “E então, quando estávamos na Inglaterra", disse ela, “logo percebi que estava extremamente solitária".

Eva e os irmãos foram mandados para lares diferentes, e os pais ficaram para trás. Em 1940, a família fugiu do Holocausto e se reuniu nos EUA, morando em Staten Island, Nova York.

Nessa época, os pais de Eva tinham perdido tudo, e a mãe passou a trabalhar como professora de inglês para refugiados por US$ 0,25 a hora até juntar o dinheiro necessário para ser massagista. O pai, um arquiteto de destaque na Áustria, vendia aspiradores de pó.

Ao longo de suas vidas, Naomi e Eva demonstraram um lado destemido habilmente cultivado pelos infortúnios.

Depois de se formar no ensino médio em Nova York, Eva foi a Detroit trabalhar na indústria automobilística.“Leve e ágil, o trabalho dela é saltar no capô dos jipes que descem pela linha de montagem e instalar os limpadores de para-brisa", disse-me recentemente a nora dela, Mary-Elizabeth Gifford. À noite, atuava como militante em uma organização trotskista. Cruzou o país pegando carona.

Naomi se formou no ensino médio no auge da Depressão, em 1934. Durante anos trabalhou em escritórios, em linhas de montagem e como torneira mecânica até reunir os recursos necessários para ir à Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Foi uma das primeiras programadoras de computador. Sua primeira coleção de poesia, publicada em 1952, foi indicada para o National Book Award. Foi amiga de Richard Wright e Bertolt Brecht, cuja obra traduziu.

Ambição indomável

O sexismo e a homofobia fizeram suas inevitáveis intrusões. A mãe de Eva achava que ela poderia administrar um hotel ou salão de beleza. Mas Eva tinha uma ambição indomável na busca por uma vida urbana, cerebral. Tornou-se professora de literatura comparada da Sarah Lawrence College. Casou-se duas vezes. Teve um filho com um dos maridos. Foi amante de Susan Sontag.

Até o surgimento do coronavírus, Eva e Naomi saíam bastante. Na maioria dos dias, davam longas caminhadas. Mantinham-se ativas em um centro de meditação budista Sangha. Faziam compras na feira e almoçavam comida vegetariana no Effy’s, em West 96th Street.

Sentem mais saudade do que foi perdido do que medo em relação ao que está por vir, e temem mais pela sua “geração", nas palavras de Naomi, do que por si mesmas, ainda que Naomi tenha vencido uma pneumonia seis anos atrás.

Como poeta, Naomi é uma seguidora do formalismo. Em Ring Song (Canção do anel), ela usa versos leves para transmitir as guinadas abruptas dos ritmos de privação e contentamento, a ideia segundo a qual a felicidade é tanto reflexo humano quanto aspiração humana:

Quando vivo de mão em mão

Nua no mercado me coloco.

Em oferta, mas não vendida

acendo uma fogueira contra o frio.

Quando o frio não destrói

dou o bote na minha alegria. 

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