FRANCOIS GUILLOT / AFP
FRANCOIS GUILLOT / AFP

'Ele é um símbolo da união nacional que queremos'

Francesa explica como decidiu criar o abaixo-assinado pelo malinês considerado herói de atentado a mercado

Entrevista com

Thiaba Bruni, criadora do abaixo-assinado 'Apoie Lassana'

Fernanda Simas, O Estado de S. Paulo

20 de janeiro de 2015 | 16h14


Após ser considerado herói por ter salvo a vida de 15 pessoas no mercado kosher de Porte de Vincennes durante o atentado da sexta-feira 9, o malinês Lassana Bathily, 24 anos, recebeu nesta terça-feira, 20, a nacionalidade francesa, em cerimônia oficial no Ministério do Interior francês. Lassana escondeu as pessoas em um frigorífico enquanto o jihadista Amedy Coulibaly fazia reféns no local.

Após assistir ao ataque pela televisão e conhecer a história do malinês, a francesa porta-voz do CRAN (Conselho Representativo das Associações de Negros na França), Thiaba Bruni, decidiu fazer um abaixo-assinado pedindo que o governo de François Hollande concedesse a Lassana a cidadania francesa.

“Ele é o símbolo da união nacional que queremos”, explica Bruni sobre a importância da iniciativa, que recebeu mais de 400 mil assinaturas pelo mundo ao ser distribuída pela plataforma Change.org. Ao Estado, ela afirmou que a história de Lassana prova que tanto ataques terroristas como ações heroicas independem de “religião ou raça” e critica a postura da presidente do partido ultradireitista Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, de relacionar a imigração na França com o islamismo radical.

Quando você decidiu criar o abaixo-assinado?

Depois de ver Lassana na televisão, ver as entrevistas dele. Naquele momento eu fiquei impressionada com a humildade dele. Ele foi um herói, salvou a vida de 15 franceses, mas para ele não era uma ação heroica. Ele disse 'não importa qual religião é a sua, católico, muçulmano ou judeu. Isso não importa porque todos somos seres humanos'. Eu fiquei emocionada com essa humildade e depois eu soube que ele queria obter a cidadania francesa e pensei em ajudar. O que ele fez foi excepcional, correu riscos que não precisava e merece ser francês e obter a cidadania e uma medalha de honra.

Como você vê a importância do abaixo-assinado?

Durante a última semana, as pessoas não falaram bem da religião muçulmana em razão dos ataques terroristas. Ele (Lassana) é um símbolo. É negro, muçulmano e não é um terrorista. É um símbolo para os franceses saberem que a nação o apoia. Ele é um símbolo da união nacional que queremos.

Como foi o apoio ao abaixo-assinado?

Eu dei uma olhada nos nomes das pessoas que assinaram as pessoas e temos pessoas negras, asiáticas, brancas, de diversas partes. Elas não têm o mesmo perfil. E isso é o mais interessante no caso da Lassana. Ele obteve um apoio geral, independente da sua religião, da sua raça.

Como você analisa a afirmação de Marine Le Pen de que é necessário haver pena de morte na França?

Acho que os franceses não aceitarão. O povo francês lutou para acabar com essa pena e, para mim, voltar a aplicar a pena de morte atualmente, seria um retrocesso. Não consigo imaginar isso e acho que o povo francês quer avançar e não retroceder.

E a afirmação de que há um vínculo entre o islamismo radical e a imigração na França?

Está errada. Se você parar para pensar os irmãos Kouachi e Coulibaly eram franceses. Quem não era francês é o Lassana Bathily. Então, até os franceses podem organizar ataques terroristas, isso não está relacionado com a sua nacionalidade.

Tudo o que sabemos sobre:
FrançaParisterrorismoLassana Bathily

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.