‘Ele estava decidido a morrer pela família’

Filho do narcotraficante Pablo Escobar relata, em livro, a história da relação familiar de um dos maiores traficantes de drogas do mundo

Entrevista com

Juan Pablo Escobar

Fernanda Simas , O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2015 | 00h01

Pablo Escobar, um dos maiores traficantes de drogas do mundo, é descrito pelo filho como o homem que não tinha medo de dizer que havia escolhido ser bandido e deu a vida pela família. Mais de 20 anos depois da morte do chefe do Cartel de Medelín, Juan Pablo Escobar, ou Juan Sebastián Marroquín Santos, nome que adotou após fugir da Colômbia em 1994, lança no Brasil o livro Pablo Escobar, Meu Pai; As Histórias Que Não Deveríamos Saber. Em entrevista ao Estado, afirma que precisava contar a “verdadeira história” de seu pai. 

Qual era a principal característica de seu pai?

O amor à sua família. Incondicional. Até seu último dia. Decidiu dar a vida para salvar a de toda a família.

A relação familiar mudou no ano em que estiveram foragidos?

Tivemos a oportunidade de estarmos mais próximos. Apesar da clandestinidade, tivemos a oportunidade de compartilhar muito tempo sozinhos. Apesar de nos perseguirem, e nos escondíamos todo o tempo, tivemos a oportunidade de compartilhar.

Como era a relação familiar e de trabalho? 

Ele separava as coisas, mas não temia enfrentar a família e nos dizer que havia escolhido ser um bandido. Ele não tinha tabus para falar com a gente de frente. Mas não nos envolvia, o que era muito difícil, pois nos meios de comunicação apareciam suas histórias.

O sr. perguntava para ele sobre o trabalho?

Diretamente. Eu queria saber. No último ano, ele praticamente me contou toda sua história de vida e o principal testemunho desse livro justamente tem a ver com essa grande quantidade de conversas. Víamos o noticiário juntos, líamos o jornal e eu perguntava a ele ‘você fez isso ou não?’. Ele dizia que sim ou não e me explicava as razões que considerava válidas para ter feito. 

O sr. ficou surpreso com as informações que não eram verdadeiras?

Eram a grande maioria. Sobre a história de meu pai se construíram grandes mitos e os meios de comunicação entenderam que meu pai vende muito. Além disso, inventaram muitas histórias que não eram verdadeiras para construir outro personagem diferente do que ele era.

O sr. perguntava para ele sobre o trabalho?

Diretamente. 'Matou esse? Colocou essa bomba? Não?' Eu queria saber. No último ano, ele praticamente me contou toda sua história de vida e o principal testemunho desse livro justamente tem a ver com essa grande quantidade de conversas. Víamos o noticiário juntos, líamos o jornal e eu perguntava a ele 'você fez isso ou não?'. Ele dizia que sim ou não e me explicava as razões que considerava válidas para ter feito. 

Ficou surpreso com as informações que não eram verdadeiras?

Elas eram a grande maioria. Sobre a história de meu pai se construíram grandes mitos e os meios de comunicação entenderam que meu pai vende muito. Além disso, inventaram muitas histórias que não eram verdadeiras para construir outro personagem diferente do que ele era.

O sr. se lembra de quando compreendeu o que seu pai fazia?

Em 1984, começamos a nos dar conta em razão da morte do ministro Rodrigo Lara Bonilla. Fugimos para o Panamá e a forma como os meios falavam do meu pai havia mudado. Já não falavam no homem que fazia obras beneficentes, que construía casas para os pobres, centros médicos e escolas, mas do homem que era considerado o autor intelectual da morte do ministro Rodrigo Bonilla. 

O que o sr. pensa das teorias sobre a morte de seu pai?

Todos têm uma versão diferente para contar. Se você perguntar à polícia da Colômbia, eles te asseguram que foram eles. Se perguntar aos americanos, eles juram que foram eles. E se você perguntar para mim, eu te juro que sim sei quem foi de verdade e está aqui no livro.

Pode nos explicar?

Estávamos buscando refúgio porque viramos o objetivo militar número 1 dos inimigos de meu pai. Já haviam destruído suas propriedades, seus amigos e conexões, mas ele não se incomodava com isso. Digo sinceramente: o que lhe atingia era que atacassem sua família. Procuramos refúgio e ninguém nos dava, nem a Cruz Vermelha Internacional, nem o Vaticano, nem as Nações Unidas ou embaixadas de outros países na Colômbia. Tentamos viajar para a Alemanha e literalmente nos colocaram a chutes em um avião e nos mandaram de volta para a Colômbia, contra a nossa vontade e por pedido do governo dos EUA e do nosso próprio governo.

Meu pai, quando nos viu voltar, entendeu que nós não éramos mais protegidos e sim reféns do Estado colombiano. E a mensagem era bem clara: ou ele aparecia morto, ou apareceríamos todos nós da família e a decisão dele já estava tomada. Por isso, meu pai escolheu deixar que descobrissem o local onde estava se escondendo. Por isso, ele infringiu sua regra de jamais usar o telefone, nos telefonou mais de cinco vezes no hotel, demorou mais do que o tempo necessário para que justamente pudessem localizá-lo. Ele estava decidido a morrer pela sua família. Eu tentei protegê-lo, desligava o telefone para ele não ser rastreado, mas ele insistia e voltava a ligar e pedia para falar com outros da família.

O sr. se lembra do que conversaram naquele dia?

Falamos de uma entrevista que estávamos preparando para uma revista muito conhecida na Colômbia, na qual falávamos das condições que ele impunha para uma segunda rendição. A única condição que ele pedia era que nos dessem um refúgio seguro no exterior. Estava disposto a aceitar a totalidade dos crimes que havia cometido e a pagar por eles, mas ao Estado colombiano isso não interessava, interessava tê-lo morto. 

Foi depois da morte dele que vocês descobriram as traições familiares?

Tristemente sim. Encontramo-nos com outros carteis de drogas e nossos familiares paternos ao invés de estarem sentados com a gente, estavam sentados do outro lado, muito amigos, muito irmãos de nossos inimigos. As pessoas que mais se beneficiaram do amor de meu pai, do dinheiro do meu pai, foram as primeiras a vendê-lo para seus inimigos. 

O sr. teve uma infância feliz?

Lembro-me de um tempo de infância feliz. Uma infância que foi interrompida pela vivência da morte do ministro. Depois, há momentos muito específicos em que pude viver temporariamente a felicidade. Nada dura para sempre, muito menos no mundo de violência que implica estar dentro da produção que alimenta essa violência.

Quando o sr. decidiu escrever o livro?

Sempre tive a sensação de que em algum momento da minha vida seria necessário contar a história como realmente aconteceu e não como as “verdades oficiais” pretendiam. Como estávamos sendo perseguidos, não podia escrever as histórias que agora sim estão nessas linhas. Com os três primeiros capítulos, tenho o suficiente para que mandem me matar. Apesar disso, meu compromisso é com a verdade, dar às vítimas o direito de acesso a essa verdade é um dos princípios para reparar essas vítimas. Eu também queria que meu filho tivesse um documento histórico válido, correto, sobre o que seu avô fez, para que ninguém lhe conte historinhas sobre ele. 

O sr. cita pessoas dadas como mortas, mas que ainda estão vivas. Alguma autoridade o procurou depois da publicação do livro para esclarecer isso?

Ninguém se interessa em resolver algo da história do meu pai porque isso causaria diversas quedas em meu país e a situação está muito cômoda com o único culpado de tudo isso sendo exclusivamente meu pai. Meu pai foi um homem que teve a capacidade de corromper grandes setores da política e instituições da Colômbia, mas esse é um segredo que ninguém quer mexer. Mas eu não escrevi esse livro para desafiar essa realidade ou mudá-la. O que me interessa é a verdadeira história por cima das versões oficiais. Claro que as contradigo e defendo minha versão porque tenho argumentos contundentes e acredito que a comprovação disso é o silêncio das instituições após a publicação. Nenhuma autoridade saiu para desmentir o que digo. 

Pensa em voltar a viver na Colômbia?

Sonho com o dia em que possamos, os mais de 5 milhões de colombianos que deixaram o país em razão da violência, recuperar o direito de poder voltar sem que a decisão leve em conta outros fatores de violência.

Como o sr. vê as negociações de paz na Colômbia?

É difícil julgar porque se sabe pouco, quando as informações que temos vêm exclusivamente dos meios de comunicação. Eu li muitas mentiras sobre minha história particular nos meios, histórias que todos creem que são grandes verdades. Apesar disso, apoio todas as iniciativas de paz. Os colombianos levaram mais de 50 anos em guerra. Há muitas gerações que não conhecem o significado de viver em paz.

Sei que o processo de paz sofreu muitas críticas, mas a paz é fundamental. Já sabemos como é um país em guerra, levamos mais de 50 anos nos matando e não evoluímos nada, pelo contrário, andamos para trás. Acredito que a paz seja o princípio da verdadeira evolução de qualquer sociedade. É preciso apoiar e valorizar todo o movimento de paz.

A única experiência de paz que tenho concretamente com minha família é a que tivemos com todos os carteis de drogas, uma paz feita nas piores condições de desigualdade, mas ainda assim é uma paz que eu valorizo. Quando alguém faz a paz com quem quer que seja, precisa estar disposto a fazer concessões, a ceder, senão a única solução é a continuação da guerra.

O perdão é essencial para essa paz?

Fundamental. Na experiência que tive com os filhos de Luis Carlos Galán e Rodrigo Bonilla quando fui lhes pedir perdão pelos atos de meu pai, eu me tornei responsável moralmente pelos atos de meu pai, passei a entender que o perdão é a ferramenta dessa nação, o perdão nos ajuda a evitar que se perpetue a dor causada pelo vitimador. As famílias de Bonilla e Galán têm dores indiscutíveis, mas eles valorizam e sabem a importância da paz para esse país. A Justiça vai aparecer no momento que deve aparecer, mas precisamos permitir o perdão e a reconciliação ou a Justiça não vai aparecer. 

O sr. teve algum envolvimento na série de TV Narcos que estreia este ano pela Netflix e conta a história de carteis de drogas na Colômbia?

Eu entrei em contato com eles por meio do diretor do documentário Nicolas Entel (documentário 'Pecados de meu pai' narrado por Juan) e ofereci meus serviços para colaborar com a história, mas eles não quiseram minha colaboração. Imagino que eles conheçam melhor a história de meu pai do que eu, que sou seu filho. Estou esperando para ver a mentira que nos mostrarão. 

Herói ou vilão? Como seu pai é visto em Medelim hoje?

Depende para quem se pergunta. Se perguntar para as 5 mil famílias que se beneficiaram com seus programas de habitação, às crianças que tinham problemas e foram tratados gratuitamente ou às comunidades abandonadas completamente pelo Estado que meu pai ajudou, com certeza têm uma opinião solidária com ele. Se perguntar para um pedestre que cruzava uma rua de Bogotá e foi vítima da explosão de um carro-bomba ordenada por meu pai, ela tem o direito legítimo de ter uma opinião negativa. Pela opinião publicada, que é diferente da pública, parece que há mais identificação com a visão negativa, mas a opinião foi publicada por meios que meu pai enfrentou no passado e bombardeou com seu narcoterrorismo, então são opiniões publicadas a partir do ódio e não da ética e da verdade.

*A Netflix afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a série Narcos foi produzida a partir do livro sobre dois agentes da agência americana de combate às drogas (DEA, na sigla em inglês) Javier Peña e Steve Murphy, e não tem a pretensão de ser um documentário.


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