Eleição a 144 quilômetros de distância

Na sexta-feira a imprensa cubana, com uma nota agressiva do Ministério das Relações Exteriores, lançou-se contra o Escritório de Interesses dos Estados Unidos em Havana (Sina). A tradicional escalada verbal contra o vizinho do norte foi acompanhada desta vez por um ataque contra o funcionamento em sua sede consular de uma sala de internet aberta ao público.

Yoani Sánchez, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h06

O lugar existe há vários anos e é visitado pelas mais diversas pessoas, desde estudantes que fazem pesquisas a jornalistas independentes que querem publicar suas notícias, e parentes de exilados que querem contatá-los por correio eletrônico.

Num país onde o acesso ao espaço virtual é um luxo desfrutado por apenas alguns, as longas filas para acessar o centro de internet da Sina incomodam o governo.

Mas, depois de ler a declaração, uma pergunta prevalece sobre todas: Por que agora, se essas salas com serviço de internet funcionam há quase uma década? Por que aparecem neste momento na capa do jornal Granma? A resposta pode ser encontrada no que ocorreu na terça-feira nas eleições americanas. Tratou-se evidentemente de uma jogada que se antecipava às eleições nos Estados Unidos. A margem de votos entre o presidente democrata, Barack Obama, e o candidato republicano, Mitt Romney, era estreita e Raúl Castro bem o sabia. De maneira que, desde alguns meses começou a ajustar os projéteis verbais contra um e outro candidato.

Para a propaganda oficial, o presidente reeleito é o homem que "recrudesceu o bloqueio imperialista", ao passo que seu rival republicano representava a "política anti-cubana".

Os olhares dentro da ilha dirigiram-se, então, com curiosidade e expectativa, para as eleições do vizinho do norte.

Havia muita coisa em jogo do outro lado do Estreito da Flórida. A política da Praça da Revolução é no sentido de contradizer Washington, que estabelece uma maneira muito peculiar de dependência. Raúl Castro lança uma tímida reforma das leis de imigração e explica que não se pode ir mais além, pois estamos sitiados pelo império.

A permissão para legalizar outros partidos também não pode ser dada porque o "Tio Sam está à espreita", ao passo que o acesso à internet deve ser possibilitado paulatina e seletivamente, para que a "guerra midiática do Pentágono" não nos afete demasiado.

Se analisarmos esta perene rivalidade, é caso de concluir que nunca os destinos dos cubanos dependeram tanto dos Estados Unidos como agora. Jamais nossa vida cotidiana esteve tão sujeita às decisões do ocupante da Salão Oval.

Poder Popular. O acérrimo discurso anti-imperialista do governo cubano acabou se tornando um círculo vicioso. Durante semanas nos meios oficiais falou-se mais das eleições nos Estados Unidos do que sobre nossas eleições do Poder Popular. Condenados a tirar as arestas negativas das eleições americanas, os comentaristas de TV esqueceram o provérbio segundo o qual "nada atrai mais do que o que é proibido". E assim cada adjetivo agressivo, cada burla, cada ataque contra Obama e Romney provocaram uma expectativa inusitada em torno desta primeira terça-feira de novembro (dia das eleições).

E tudo isso sublinhou também a progressiva perda de importância de Cuba na política americana. A flagrante irrelevância desta ilha que ficou evidente durante a campanha presidencial à qual se dedicou atenção.

Crise dos mísseis. Estava longe aquele outubro de 1962 quando os foguetes nucleares obrigaram o mundo a prestar atenção à maior ilha das Antilhas. Agora o olhar de Obama se dirige para outros lugares e em seu segundo mandato essa tendência só vai se aprofundar. Ele terá de resolver primeiro os problemas da economia interna dos Estados Unidos e sanear suas finanças.

A crise na Europa ocupará boa parte da sua atenção, como também a situação no Iraque, Afeganistão, Irã e agora a Síria.

Raúl Castro precisa voltar a ganhar espaço na agenda do seu eterno inimigo, pois seu poder se insere nisso. Seu discurso para dentro e para fora tem como base essa rivalidade, não pode existir sem ela. Por isso, já começam a surgir os sintomas de uma escalada diplomática que obrigará a um posicionamento do recém-eleito presidente americano.

A linguagem política fica mais afiada, os insultos se tornam mais brilhantes e o incentivo ao confronto aumenta para que o mandatário reaja.

É hora de tentar se colocar entre as prioridades do vizinho do norte, custe o que custar, mas esta estratégia já não funciona. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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