REUTERS/Kevin Lamarque
REUTERS/Kevin Lamarque

Eleição americana deve influenciar vaga na Suprema Corte

Republicanos podem aceitar após a votação a indicação do moderado Garland diante do risco da imposição de nome menos conservador

Carl Hulse , THE NEW YORK TIMES

18 de março de 2016 | 05h00

WASHINGTON - A indicação do juiz Merrick B. Garland para a Suprema Corte pelo presidente Obama provocou uma série de elucubrações difíceis mesmo para uma capital que adora intrigas políticas. Mas a crescente luta para preencher a vaga tem o potencial de virar um confronto que pode também ajudar a determinar o vencedor da corrida para a Casa Branca, influir no controle do Senado e pesar no equilíbrio ideológico da Corte. 

É daquelas raras disputas de Washington que agitam os três ramos do governo, com o potencial de danificar cada um deles.

A indicação do juiz Garland, um jurista de centro comprovadamente do agrado dos republicanos, foi feita horas depois de Donald Trump chegar ainda mais perto da indicação republicana para a presidência, levantando novos temores no partido de uma vitória democrata e mesmo da tomada do controle do Senado.

A possibilidade levou alguns senadores republicanos inquietos a sugerir que podem aceitar a indicação de Garland numa sessão após a eleição, preferindo o moderado e conhecido Garland às incertezas da futura escolha de um presidente democrata. 

“Para aqueles de nós preocupados com os rumos da Corte, que querem uma figura pelo menos mais de centro, entre ele e alguém que a presidente Hillary Clinton possa indicar a escolha me parece clara: avaliar numa sessão após a eleição”, disse o senador Jeff Flake, republicano do Arizona, da Comissão de Justiça, aludindo à possibilidade de vitória de Hillary em novembro.

Flake não estava sozinho. O senador Orrin G. Hatch, republicano de Utah que também faz parte da comissão, disse que está aberto a aceitar a indicação após a eleição, como vários outros. Mas essa não é a visão majoritária republicana, e o senador Mitch McConnell, líder da maioria, insiste em que o próximo presidente, não Obama, preencha a vaga.

A perspectiva da avaliação pós-eleição também mostrou que a escolha de Obama vem dando alguns frutos, com um crescente número de senadores republicanos dizendo que podem pelo menos se reunir com o juiz Garland, mesmo com essas visitas tendo sido declaradas proibidas.

Os democratas dizem que a chegada de um indicado “de carne e osso” após semanas de disputa com os republicanos daria nova força a sua campanha para forçar uma audiência e o juiz Garland é uma escolha forte, difícil de resistir e, igualmente importante, de demonizar. Milhões de dólares serão gastos de ambos os lados na discussão para tentar defini-lo e quais os senadores que se opõem a sua indicação.

Os democratas também deixaram claro que Trump e sua possível eleição terão destaque nos argumentos contra os republicanos por bloquearem qualquer consideração sobre o juiz Garland.

“Donald Trump vem tomando força como indicado republicano. Quando os americanos virem que podem ter ou Garland ou alguém que Trump ponha lá, o que vocês acham que eles vão dizer?”, perguntou o senador democrata Chuck Schumer, de Nova York.

Senadores democratas e funcionários do governo continuam a acreditar que seus adversários republicanos terminarão cedendo e mostram pouco interesse em esperar até depois da eleição para saber se a indicação do juiz Garland tem chance de ser aprovada.

“Não há nenhuma boa razão para esperar até a sessão pós-eleição para o Senado cumprir seu dever para com a Constituição e o povo americano”, disse Josh Earnest, porta-voz da Casa Branca.

Ao mesmo tempo, McConnell declarou mais uma vez que este Senado jamais aprovará a indicação do juiz Garland - posição que, segundo assessores, ele manifestou diretamente ao juiz num telefonema na quarta-feira.

“O povo americano é perfeitamente capaz de opinar no caso. Então vamos deixar que fale”, disse McConnell. “O Senado vai rever a matéria quando considerar as qualificações do indicado pelo próximo presidente, seja ele quem for.”

Alguns de seus companheiros republicanos, pressionados pela ideia de uma votação pós-eleição, concordaram em que considerar a indicação imediatamente depois da eleição violaria seu principio de esperar não apenas os resultados da votação, mas da posse de um novo presidente.

“Se vocês acreditarem no princípio - como acredito - de deixar o próximo presidente fazer a indicação, então apoiarei isso”, disse o senador David Pardue, republicano da Geórgia. Para outros, ainda há muito chão pela frente, mas há indícios de que um mau desempenho eleitoral pode mudar cabeças no Senado.

Escolha popular. “Minha posição é a de que devemos deixar o povo americano avaliar a situação e aí vermos o que o povo gostaria de ter com base na eleição de novembro, disse a senadora Kelly Ayotte, de New Hampshire, que está numa dura disputa para manter sua cadeira e é o principal alvo de ataques democratas sobre o Supremo.

Embora ela volte para casa durante as duas semanas de recesso defendendo a posição do partido de “deixar que o povo decida” sobre a vaga na corte, ela deverá ouvir muito a frase “faça seu trabalho”. Esse é o bordão democrata de campanha adotado e promovido por Schumer, e ele acredita que seja uma mensagem simples e poderosa que pode ajudar os democratas a reconquistar o Senado.

Em Washington, diz-se muito que eleições têm consequências. Mas os dois lados estão cada vez mais propensos a ver a disputa do Supremo como tendo consequências nas eleições. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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