Eleição americana mostra a ascensão do centro radical

Meio a meio. Nas eleições de terça-feira nos Estados Unidos, os democratas reconquistaram a Câmara, mas a proeza ainda não foi concretizada no Senado em meio a litígios tão americanos sobre os resultados em algumas votações estaduais. Meio a meio, em termos. O copo está mais cheio do que vazio para os democratas. Os democratas concretizaram uma façanha, mas a rigor seria uma vergonha caso não tivessem conquistado o que conquistaram. Eles foram beneficiados por um típico voto de protesto. Com sua acidez habitual, o comentarista conservador George Will disse que, diante dos fiascos do governo Bush e das legiões republicanas, os políticos democratas deveriam procurar outro tipo de trabalho caso não alcançassem algum tipo de vitória. O partido no poder sempre se desgasta e perde cadeiras no Congresso (e às vezes o seu comando) no meio do segundo mandato do seu presidente. George W. Bush, famoso por insistir em não alterar o curso no Iraque, achou que poderia facilmente mudar o rumo da história política americana. Ele e seu guru eleitoral Karl Rove apostaram que, desde a controvertida vitória presidencial no ano 2000, tinham condições de criar uma duradoura hegemonia republicana no país sustentada pela aguerrida base conservadora. Como na política externa e na chamada guerra contra o terror, era uma estratégia eleitoral baseada no quem-não-está-conosco-está-contra-nós. No máximo, esta máquina republicana topava alguns acenos a moderados em momentos de sufoco eleitoral. Estratégia rejeitada Na terça-feira, os eleitores disseram não a esta estratégia. Temos agora avanços na incipiente estratégia democrata de criar uma maioria alternativa (a consolidação terá lugar apenas nas eleições presidenciais de 2008), na qual não se morde a isca da polarização. As fundações democratas estão plantadas muito mais no centro e na necessidade do apoio de eleitores moderados e independentes. A prova está na vitória neste ano de congressistas que estão à direita da base de ativistas do partido. As eleições foram um plebiscito em questões como Iraque e escândalos éticos ou de corrupção. Mas, atenção, elas foram um rechaço mais à incompetência e arrogância dos republicanos do que uma punição ideológica ou um clamor por mudanças radicais. Foram eleições diferentes daquelas que aconteceram em 1994, quando os republicanos triunfaram nas eleições no Congresso com o propósito de fazer uma revolução conservadora. Pragmatismo Em 2006, a estratégia de polarização de Bush e Rove, agravada pelos desastres do governo e escândalos no Congresso, empurrou o centro político para a banda democrata. Eleitores menos ideológicos e adeptos de um governo eficiente se distanciaram dos republicanos. A expectativa agora é que os democratas trabalhem de forma pragmática e em busca de soluções em questões que vão do Iraque ao futuro da assistência médica. E. J. Dionne, professor da Universidade Georgetown e colunista do jornal The Washington Post, delineia o cenário nos seguintes termos: o pais assiste à ascensão do "centro radical", composto de eleitores essencialmente moderados na sua filosofia política, mas radicais na sua insatisfação com o status quo. O desafio para os democratas será atender às aspirações destes americanos decepcionados caso queiram consolidar uma nova hegemonia política nos EUA.

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