Eleição amplia incertezas na economia

Vença quem vencer, na ressaca da disputa decisões sobre temas como dívida e cortes nos gastos públicos devem ser adiadas novamente

ANDREW ROSS SORKIN , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2012 | 02h04

Pode parecer contra o senso comum, mas seja qual for o resultado da eleição, a economia e os mercados enfrentarão mais incertezas, e não menos, no ano que vem. Nos últimos anos, o termo "incerteza" tornou-se uma espécie de senha para explicar o lento crescimento da economia, o desemprego e a volatilidade do mercado de ações.

Hoje saberemos quem é o novo presidente. Mas isso não põe fim à incerteza. Quase que imediatamente após as eleições, o próximo assunto de conversas em Washington e em Wall Street será o agora tristemente célebre abismo fiscal, uma série de aumentos automáticos de impostos e cortes de despesas, resultado de um compromisso alcançado no Congresso no meio deste ano e previsto para vigorar em 1.º de janeiro, salvo se os parlamentares encontrarem uma alternativa.

Alguns economistas afirmam que estes aumentos de impostos e cortes de gastos contemplados no acordo poderão reduzir 4% do PIB se não houver uma renegociação.

Os executivos já vêm afirmando que a incerteza quanto aos resultados desse abismo fiscal os impede de realizar novos investimentos.

Mas a maior probabilidade é que esta incerteza não vai desaparecer tão cedo - e a aposta dos especialistas é que, não importa quem vencer, o Congresso encontrará uma maneira de postergar o assunto para, talvez, o final do próximo ano, lançando uma nova nuvem de incerteza sobre a economia.

Para os investidores, o compromisso formalizado pelo Congresso inclui um aumento de imposto sobre os dividendos (que os torna equivalentes a um rendimento comum, sobre os quais as taxas podem chegar a 39,6%) e ganhos de capital (de 15% para 20%). Numa nota aos clientes enviada na noite de domingo, o Goldman Sachs afirmou esperar que o imposto sobre dividendos e ganhos de capital seja negociada para 20%, num segundo mandato de Barack Obama ou num governo Mitt Romney.

Mais importante, o Goldman observou que quando aumentos de impostos similares foram negociados em 1970 e 1986, "o S&P 500 contabilizou retornos negativos no mês de dezembro anterior à implementação uma vez que os investidores não abriram mão do imposto menor. "Dezembro registra o segundo maior retorno mensal médio desde 1928", indica o relatório.

Muitos investidores já começaram a vender ações e empresas, antecipando-se aos aumentos de impostos. Havia fortes rumores na semana passada de que uma das razões da venda da Lucasfilm, empresa de George Lucas, para a Disney, por US$ 4,1 bilhões em dinheiro e ações, foram as iminentes mudanças na política fiscal.

Uma vez superada a questão do abismo fiscal, se o conseguirmos, temos a Europa. Os problemas da Grécia e da Espanha ficaram distantes das páginas de capa dos jornais durante a campanha eleitoral, mas não desapareceram. Alguns economistas afirmam que a situação piorou. Angela Merkel, a chanceler alemã, que em 2013 enfrentará uma eleição, declarou na segunda-feira que a crise fiscal na Europa deve durar no mínimo cinco anos.

Irã. E não vamos esquecer o Oriente Médio. Esta "incerteza" com relação ao mundo e à economia global não vai desaparecer tão cedo. Dúvidas sobre um possível ataque ao Irã vão persistir seja quem for o presidente.

E, finalmente, temos Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (banco central dos EUA), que é uma das maiores incertezas entre todas. É provável que ele deixe o cargo no fim de seu mandato, no início de 2014, independente de quem vencer o pleito.

Se Romney ganhar, talvez ele se retire mais cedo, mas é improvável. No próximo ano e meio, o futuro de Bernanke como presidente do Fed vai criar incertezas para os investidores que se acostumaram às suas medidas de política monetária.

Se Obama vencer, deve indicar um novo presidente que seja flexível em termos de política monetária, disposto a continuar imprimindo dinheiro como Bernanke, estratégia que carrega seus próprios riscos.

Se Romney vencer, poderá nomear um presidente mais agressivo, o que vai causar um outro tipo de incerteza, sobre como o Federal Reserve vai se desembaraçar das políticas adotadas por Bernanke.

Nenhuma destas questões é nova. Obama assumiu o governo enfrentando uma disputa de política fiscal que não foi, e provavelmente não poderia ser, solucionada diante do impasse no Congresso. Não existe nenhuma solução em vista para os problemas da Europa.

A tensão no Oriente Médio está aumentando tão rápido quanto a tecnologia nuclear. E a política monetária do Fed hoje é a mais opaca desde o governo de Ronald Reagan.

Tudo isso mostra que o comediante Jon Stewart acertou em cheio com o título irreverente que deu à sua cobertura da eleição no The Daily Show no canal Comedy Central. Seguindo uma tradição, ele a denominou como "Indecisão 2012". E para 2013 o titulo também é bom. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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