Eleição de Kagame testa a democracia em Ruanda

Reeleito com 93% dos votos e a perspectiva de ficar 17 anos no poder, líder ruandês alcança dentro da lei números típicos de ditadores africanos

Gustavo Silva, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Presidentes reelegem-se com quase 100% dos votos na África. Raro é que o façam em eleições limpas. Esta semana, Paul Kagame conquistou com 93% dos votos, sem sinais de fraude eleitoral, um mandato de sete anos, ao final do qual terá presidido Ruanda por 17 anos. Os números indicam apego ao poder e popularidade comuns também aos ditadores do continente.

A idolatria a Kagame, de 52 anos, deve-se a um genocídio. Em 1994, ele freou a matança que já tinha deixado 800 mil vítimas. Por isso, na abertura do Festival Pan-Africano de Dança, realizado no fim de julho no estádio nacional, em Kigali, nenhuma apresentação nem mesmo os fogos de artifício, fizeram tanto barulho quanto seu discurso. Suas palavras, em um inglês indecifrável e abafado pelo sistema de som, levaram à histeria 20 mil pessoas. Falou um pop star.

Nos prédios do governo e em grande parte das lojas, a foto de Kagame vigia os 10 milhões de ruandeses. O culto a ele chega às casas. "Foi o homem que tirou o país do caos", diz o estudante Yannick Tona, tutsi sobrevivente do genocídio, vestindo camisa com a imagem do presidente.

Tona ajudou a reeleger Kagame na segunda-feira. Na presidência desde 2000 (de 1994 até então acumulava os cargos de ministro da Defesa e vice-presidente), é um herói: o homem que liderou as tropas da Frente Patriótica Ruandesa (FPR) e pôs fim ao genocídio contra membros das minorias étnicas tutsi e hutus moderados.

Sob seu governo, Ruanda tornou-se um país modelo no continente. A economia cresce - estimativa de 6% para 2010 -, e o nível de corrupção é dos mais baixos da África. O Banco Mundial colocou o país entre os melhores para se investir na África. Chegam doações de governos e empresas como Starbucks. Em Kigali, a pavimentação e abertura de ruas, a construção civil e a instalação, com ajuda da Coreia do Sul, de fibra ótica, levantam a terra vermelha. A poeira alimenta a popularidade de Kagame.

Apologia ao genocídio. Políticos de oposição, jornalistas e dissidentes da FPR reclamam de perseguição do popular Kagame. A acusação mais comum vinda do governo é a de "apologia ao genocídio". Para a Anistia Internacional, "um termo vago e ambíguo para sufocar a liberdade de expressão". "Duas coisas que não recomendo aqui em lugares públicos: perguntar às pessoas se elas são tutsis ou hutus e discutir sobre política", aconselha um diretor da Aegis Trust, ONG que mantém o maior memorial do genocídio em Kigali.

Recentemente, o grupo Repórteres Sem Fronteiras colocou Kagame entre os "Predadores da Mídia". Em 2010, os dois jornais independentes do país foram fechados. Sua mais inusitada ação contra a imprensa foi aumentar em 23 vezes o valor do registro de jornalista (agora em US$ 12).

Em junho, três jornalistas foram presos por "insultar o presidente". No mesmo mês, um editor foi assassinado em frente de casa. A 136 quilômetros ao sul da capital, em Butare, segunda cidade do país, o vice-presidente do Partido Verde, André Rwisereka, da oposição, foi encontrado morto, quase decapitado.

Esta semana, Kagame negou participação nos crimes e ressaltou a unidade obtida no país. Uma de suas primeiras e mais celebradas medidas após o genocídio foi abolir as carteiras de identidade étnicas. Na prática, a situação é outra. "Sabemos quem somos e de onde viemos", diz a estudante Esperance Nizuke, de 16 anos. "Faz parte da nossa cultura. Meus filhos vão saber que são tutsis e os filhos deles vão saber se são tutsis ou hutus."

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