REUTERS/François Mori/Pool
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Eleição de Macron torna Brexit mais duro para Londres

Novo presidente francês quer que União Europeia negocie acordo de saída com poucas concessões aos britânicos e unir o bloco

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2017 | 05h00

A posse de Emmanuel Macron como novo presidente da França consolidou a perspectiva de que o divórcio entre a União Europeia e o Reino Unido aconteça sem concessões - o chamado “Hard Brexit”. O novo líder francês vê essa posição, que já vinha sendo defendida por assessores diretos da primeira-ministra britânica, Theresa May, como uma oportunidade para reforçar a unidade entre os 27 países do bloco. 

A linha de Macron para as negociações do Brexit ainda será melhor definida pelo novo ministro das Relações Exteriores francês, Jean-Yves Le Drian. O certo desde já é que a prioridade da política externa do país será orientada para reformar a União Europeia. Em fevereiro, quando ainda era candidato, Macron esteve em Londres com Theresa May e seu recado foi diplomático, mas claro.

“ Sair quer dizer sair. Não haverá acesso ao mercado único sem contribuição orçamentária”, disse ele. “Não pode haver um Brexit que conduza a algum tipo de otimização da relação entre o Reino Unido e o resto da Europa.”

Partidários do Brexit afirmaram durante a campanha no plebiscito de 2016 que seria possível obter um acordo de livre-comércio com os 27 países da Europa, e ao mesmo tempo economizar a contribuição britânica, de € 11,3 bilhões - a quarta mais elevada do bloco, atrás da alemã, da francesa e da italiana. Para Macron, nenhum país europeu se beneficiará do mercado sem contribuir financeiramente para a UE.

Um dos mais próximos conselheiros de Macron, o economista Jean-Pisani-Ferry, um dos criadores do plano de governo do movimento En Marche, confirmou nessa semana que a tendência é de que a União Europeia chegue às negociações, cujo início está marcado para 18 de junho, com uma posição unânime frente ao Reino Unido. 

“Nós estamos em uma fase das discussões sobre o Brexit dominada intensamente pelo cálculo dos interesses em ambos os lados”, afirmou na segunda-feira, no primeiro dia do novo governo. “Os 27 são unânimes em algumas linhas vermelhas, e não creio que Macron se afastará do consenso.”

Para Andrew Glencross, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Aston, a vitória de Macron nas eleições da França de fato criou um novo líder na União Europeia, solidificando a posição do bloco contra a posição do Reino Unido. “A vitória de Macron é beneficia os mercados financeiros da Europa porque ele compartilha a visão pró-UE e pró-euro que caracteriza Jean-Claude Juncker (presidente da Comissão Europeia), a chanceler Angela Merkel e os poderosos negociadores das discussões sobre o Brexit”, diz o pesquisador.

Glencross lembra ainda que Macron tem uma carta na manga para pressionar o Reino Unido: o Tratado de Le Touquet, que estabelece o litoral da França como a fronteira entre os dois países. Esse acordo garante, por exemplo, que toda a pressão imigratória será tratada pelo lado francês - o que leva, por exemplo, à formação dos campos de estrangeiros em Calais, no norte do país. 

Se Paris abandonar o acordo, todo o fluxo de imigrantes deverá ser tratado pelas autoridades britânicas - o que na prática minaria outra propaganda da campanha dos favoráveis ao Brexit: o controle da imigração. “ Qualquer que seja o resultado das barganhas do Brexit, o governo e o eleitorado britânicos podem esperar uma presidência muito diferente da de François Hollande”, diz Glencross, referindo-se a Macron.

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