'Eleição é sobre Bibi e não sobre sua política'

Analista israelense diz que, neste ano, a visão sobre a questão palestina não definirá quem será o novo primeiro-ministro

Entrevista com

Yoav Sivan, ex-assessor do Partido Trabalhista

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

17 Março 2015 | 02h01

A eleição parlamentar desta terça-feira, 17, em Israel difere das anteriores por não ter como ponto central a diferente visão dos partidos sobre o diálogo com os palestinos, mas sim a avaliação do atual primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, analisa o jornalista israelense Yoav Sivan, que trabalhou na área de imprensa do Partido Trabalhista e hoje mora em Nova York e escreve sobre política israelense.

"O diálogo com os palestinos não é um ponto importante nessa eleição. A eleição é mais sobre a pessoa Netanyahu", diz Sivan, lembrando que a participação do candidato Isaac Herzog acirrou a disputa eleitoral. Abaixo, trechos da entrevista ao Estado.

Como o senhor vê o cenário eleitoral deste ano?

Essa eleição não é sobre uma questão política, mas sobre uma pessoa: Binyamin Netanyahu. Ele é o segundo primeiro-ministro na história de Israel a ocupar o cargo por tanto tempo. Será uma disputa entre os que querem manter Netanyahu e os que querem substituí-lo. As eleições passadas geralmente marcavam o embate entre visões políticas. A esquerda apoiava a criação de um Estado palestino, defendendo os direitos civis, e a direita receava a solução de dois Estados e uma agenda liberal. Essa divisão não é o principal hoje. Os eleitores estão cansados.

A questão palestina é um ponto menos importante este ano?

O diálogo com os palestinos não é importante nesta eleição. A eleição é mais sobre a personalidade de Netanyahu e não sobre suas políticas.

Por que Netanyahu ficou tão desgastado?

Ele está no poder agora, é o alvo dos ataques. Naturalmente, os israelenses estão divididos. Israel não está em crise, mas não há esperança de progresso, não há uma agenda. Enquanto isso, Herzog está fazendo um bom trabalho. Netanyahu é uma pessoa muito carismática, sabe o que dizer, fala perfeitamente inglês. Herzog é o oposto. Não é carismático, nunca ocupou um cargo no governo e, ainda assim, agrada a muitas pessoas. É surpreendente que a pessoa carismática esteja perdendo apoio. Essa eleição é sobre liderança.

A participação da União Sionista mudou o rumo da eleição?

Isaac Herzog, que lidera a União Sionista, mudou o curso da eleição. Ele foi capaz de estimular aqueles que temem um novo mandato de Netanyahu. Isso será suficiente para ganhar a eleição? Não sei, a matemática política ainda favorece Netanyahu, mas podemos afirmar que Herzog criou uma bela disputa.

O que significa a criação da coalizão para o Partido Trabalhista?

A União Sionista é uma nova marca para o Partido Trabalhista. Seu objetivo não é apenas se tornar o maior partido no Parlamento, mas principalmente ganhar o apoio de 61 das 120 cadeiras do Parlamento e formar um governo de coalizão.

Com uma vitória de Herzog, é possível dizer que haverá mudanças em Israel?

Os eleitores votarão com a cabeça voltada para os candidatos e não para propostas, mas acho que se Netanyahu perder haverá mudanças. Principalmente porque Herzog, por não ter tido necessidade de fazer promessas, terá mais liberdade para mudar políticas, não estará sob pressão popular. Sobre a questão palestina, por exemplo, acho haveria mudanças em um ano, avanços em termos de negociação e colaboração. Haveria mais boa vontade.

A relação com os EUA passará por mudanças?

O discurso de Netanyahu no Congresso dos EUA não ajudou na relação. No entanto, a aliança entre eles é de longo prazo, está além dos líderes de cada país. O apoio de Israel faz parte da política americana e não vai mudar tão cedo.

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