Eleição em Mianmar é ensaio para 2015

Votação de domingo pode alterar o equilíbrio de poder ao apresentar, agora com Suu Kyi como legisladora, uma oposição mais forte e capaz de questionar as políticas do governo

, É JORNALISTA, MARKMAGNIER, LOS ANGELES TIMES, , É JORNALISTA, MARKMAGNIER, LOS ANGELES TIMES, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2012 | 03h04

Num certo sentido, a eleição de domingo em Mianmar era relativamente insignificante. Estavam em jogo apenas 43 das 664 cadeiras do Parlamento. O controle garantido dos militares não vai mudar. E a principal manchete, a eleição da líder da oposição, Aung San Suu Kyi, nunca esteve em dúvida.

Por outro lado, a votação é um marco histórico para Mianmar depois de anos de isolamento, um gesto do governo militar do país antes conhecido como Birmânia no sentido de convencer o mundo que as reformas recentes são genuínas, merecendo o fim das sanções americanas e europeias impostas em decorrência de abusos dos direitos humanos.

"Há realmente muito em jogo", disse Sean Turnell, professor de Economia da Universidade Macquarie, da Austrália, e editor do site Burma Economic Watch. "Trata-se de fato de um recado para os EUA e outros países de todo o mundo." Os Estados Unidos, que retomaram plenas relações diplomáticas com Mianmar neste ano, e outros governos ocidentais devem se concentrar em vários elementos ao avaliar os resultados. Até que ponto a eleição foi limpa? Quantos políticos da oposição foram eleitos? Como será a recepção dos novos legisladores pró-democracia pelo restante do Parlamento, dominado por soldados e oficiais da reserva?

Além disso, será avaliado continuamente o progresso nos termos de uma plataforma política mais ampla, com medidas voltadas para as minorias étnicas, o respeito aos direitos humanos e a real emergência do Parlamento como contrapeso à presidência e ao Exército. Muitos grupos de ativistas dizem que o governo continua a agir com demasiada lentidão nessas áreas.

Sob muitos aspectos, a votação foi um ensaio para a eleição geral de 2015. Pode alterar o equilíbrio de poder ao apresentar uma oposição mais forte, vibrante e capaz de questionar as políticas do governo, algo que o governo não enfrenta há décadas. Como legisladora, a ex-prisioneira política Suu Kyi deve exercer uma forte pressão por mudanças constitucionais que acabem com a censura, libertem os prisioneiros políticos e revertam no Parlamento a posição de controle garantida ao Exército.

Recompensa. Os EUA e a União Europeia devem continuar com suas táticas de recompensa e castigo. Eles temem a possibilidade de acabar com as sanções rápido demais e perder seu poder de influência, ao mesmo tempo que buscam recompensar o país pelos avanços já apresentados.

Os analistas dizem que a Europa deve agir mais rapidamente do que Washington no sentido de afrouxar as restrições, talvez em parte como maneira de dar às suas empresas uma oportunidade de chegar primeiro ao país.

A reforma política traz consigo uma reforma econômica, com a promessa de empregos, habitação e melhores condições de vida para os 50 milhões de habitantes do país.

Num primeiro passo atentamente observado, Mianmar deve, em breve, apresentar regras que ponham fim ao antigo sistema de câmbio duplo, no qual a moeda oficial flutua em torno de 6 kyats para cada US$ 1, enquanto o mercado paralelo sustenta um câmbio de 800 kyats por dólar.

Isso deve reduzir o contrabando e incentivar o investimento estrangeiro, além de marcar o início do combate à corrupção que há anos afeta o país, ao inchaço nas empresas estatais e às ineficiências estruturais que beneficiavam os clientes do governo à custa do povo. Mas o país se vê diante de um desafiador número de equilibrismo. Se a mudança econômica for rápida demais - ou se os benefícios se concentrarem apenas na elite -, protestos podem levar a uma repressão militar, devolvendo o comando aos linhas-duras.

"Se não for permitida uma concorrência genuína, todo o processo de reformas pode causar uma reação negativa", disse Rajiv Biswas, economista-chefe do grupo de análise IHS Global Insight, residente em Cingapura. "Não apenas no âmbito local, mas também no internacional, os países ocidentais podem reagir dizendo 'não foi isso que imaginamos'."

Suu Kyi acusou representantes do governo de empregar truques sujos com o objetivo de sabotar os candidatos da oposição, convocando supervisores internacionais para a investigação de irregularidades. Por mais que a eleição tenha transcorrido em relativa paz, os candidatos da oposição relataram episódios nos quais foram intimidados e assediados.

Em geral, o presidente Thein Sein é visto como favorável às reformas e o governo militar parece enxergar a vitória de Suu Kyi e outros candidatos da oposição como o preço de uma integração maior com o restante do mundo. "O presidente precisa da participação de Suu Kyi e da LND para finalmente convencer o mundo da seriedade de seu compromisso com as reformas", disse Morten Pedersen, professor de política na Universidade de New South Wales, Austrália.

A cada mês fica mais difícil para o regime devolver o gênio da democracia à lâmpada, dizem os analistas. "Não podemos dizer que a situação não pode mais ser revertida", disse Turnell. "Agora que as pessoas têm mais oportunidade de dizer o que pensam, o conflito seria grande, diferentemente da situação de seis meses atrás, quando tudo ainda poderia ser anulado com um golpe palaciano." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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