EFE|DANIEL DAL ZENNARO
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Eleição enigmática

A votação na Itália é como uma peça de teatro, só no último ato se sabe o vencedor

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

03 Março 2018 | 05h00

Neste domingo serão realizadas eleições legislativas na Itália. Essa votação, como ocorre sempre na Itália, até o final se desenrola em meio a um mistério opaco, com surpresas, surgimento de figuras ocultas e pesquisas de opinião normalmente desmentidas pelos resultados. Aliás, essa soma de enigmas é que torna as eleições italianas tão interessantes. Como em uma boa peça de teatro, é preciso esperar o último ato para saber quem é o vencedor.

Este ano há uma peculiaridade suplementar: Silvio Berlusconi à frente do poderoso partido Força Itália. O fato é que ele não tem mais direito de disputar uma eleição, por força de uma decisão de 2013. E acha que isso vai fechar a boca do “Cavaliere?”. Não. Ele faz campanha por seu partido. Na falta de ser rei, agora ele “faz o rei”, ou seja, vai exercer uma enorme influência sem poder e sem ser diretamente candidato.

À direita da Força Itália está a Liga Norte, partido xenófobo, antieuropeu e extremista, que pretende que o norte próspero do país (Milão, Veneza) se liberte do peso morto das terras queimadas, indolentes e pobres que vegetam ao sul de Roma, incluindo ilhas repletas de mafiosos. Essa obsessão restringia um pouco a área de propagação da Liga Norte, que sempre passou uma imagem de partido regionalista. Hoje ela mudou seu programa.

Essa mudança é obra do novo homem forte desse partido, o jovem Matteo Salvini, de 43 anos, que substituiu Umberto Bossi. A sua mensagem é nova e também extremista, mas ele direciona seus canhões contra novos alvos.

Quando entrou em cena, Salvini parecia um homem bem disciplinado. Como a Liga não aprecia os italianos do sul, o jovem Salvini também não – e rejeitava a bandeira tricolor. Desprezava Roma, a capital. No torneio de futebol Euro 2000 torceu pela França, não para a equipe da Itália. Seis anos depois, queria a vitória da Alemanha. Quando foi deputado europeu, ele se referia aos italianos do sul deste modo: “Sinta como eles fedem. Até os cachorros fogem quando os napolitanos chegam”.

Ora, tendo ouvido falar que um homem inteligente deve mudar de opinião de vez em quando, foi o que fez de bom grado. Durante a campanha, levou seu discurso para o “mezzogiorno” tão desprezado pela Liga Norte. E como é um político muito eloquente, foi aclamado pelas pessoas que antes chamava de “fedorentas”.

É verdade que, no decorrer dos últimos anos, Salvini modificou seu discurso. Agora, Salvini dirige seus ataques contra Bruxelas e a União Europeia, que considera culpada de abrir o continente europeu para os africanos que enviam para a Itália seus produtos agrícolas e seus imigrantes.

Salvini abrandou o conceito regionalista da Liga para torná-la um partido próximo dos populistas, dos partidos de extrema direita neofascistas que habitam os pesadelos de Bruxelas e dos europeus. E funciona. Quando assumiu a chefia da Liga Norte, o partido havia obtido apenas 6% dos votos nas eleições europeias de 2014. Agora, os institutos de pesquisa creditam à agremiação 13% dos votos, às vezes 15%. 

Mas, no âmbito das instâncias dirigentes, essa metamorfose não seduz todo mundo. A velha geração continua fiel ao seu ódio do sul italiano e a seu desejo de um norte autônomo.

Estes novos caminhos podem levar a Liga para perto do poder. O primeiro objetivo é superar outro partido de direita, a Força Itália. No momento, as duas agremiações estão em pé de igualdade. Mas a dinâmica está mais do lado da Liga, que vem lentamente se apoderando do eleitorado da Força Itália. Se ela vencer o partido rival, Salvini poderá reivindicar o posto de presidente do Conselho. Se for o contrário, então Berlusconi poderia nomeá-lo ministro do Interior, com a missão de expulsar meio milhão de imigrantes que importunam a Itália.

Em oposição, há o Movimento 5 Estrelas (M5S), fundado pelo bufão Beppe Grillo, que nomeou o jovem Luigi di Maio seu candidato. Mas o M5S está desgastado. O complicado no caso do M5S é que os próprios chefes não sabem se são de direita ou de esquerda, pois mudam constantemente.

Há também o Partido Democrata, cujo chefe, Matteo Renzi, depois de nomeado presidente do Conselho, despertou o entusiasmo de todos. Mas ele se tornou rapidamente uma figura abominável. O panorama é instável e sombrio. Entendemos que nessa corrida extenuante onde os curingas trocam de chapéu ou viram casaca, os institutos de pesquisa não entendem mais nada. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

 

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