EFE/ ANGELO CARCONI
EFE/ ANGELO CARCONI

Eleição indica volta da direita na Itália

Após seis anos de governos de centro-esquerda, coalizão de Berlusconi é favorita para vencer e voltar ao poder

Lourival Sant’Anna, enviado especial / Roma, O Estado de S.Paulo

04 Março 2018 | 03h00

ROMA - Depois de seis anos de governos “técnicos”, reformistas e de centro-esquerda, a Itália pode voltar, com as eleições de hoje, para as mãos da direita populista, sob a marca do imortal Silvio Berlusconi. Impedido de se tornar primeiro-ministro pela quinta vez, por ter sido condenado por fraude fiscal, Il Cavaliere, como é conhecido, pode ressurgir no rastro de uma coalizão com os nacionalistas da Liga e dos Irmãos da Itália (FdI).

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De acordo com uma média de pesquisas, calculada pelo Instituto de Estudos da Opinião Pública (Ispo), de Milão, a aliança de centro-direita teria 37% dos votos, seguida pelo Movimento 5 Estrelas (M5S), do comediante Beppe Grillo, com 28%, e pelo Partido Democrático (PD), do atual primeiro-ministro, Paolo Gentiloni, com 27%.

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As eleições italianas são imprevisíveis. A lei proíbe a divulgação de pesquisas duas semanas antes da votação. O sistema eleitoral e partidário é muito fragmentado e dificilmente um partido ou mesmo aliança alcança maioria absoluta. O presidente, no caso Sergio Mattarella, tem muita autonomia para escolher quem deve formar governo.

No entanto, os partidos continuam fazendo suas pesquisas e, nas vésperas da eleição, o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, aceitou convite de Berlusconi para postular o cargo de primeiro-ministro. Dificilmente Tajani se exporia a enfraquecer seu mandato à frente do Parlamento Europeu se não tivesse indícios fortes de vitória do partido.

O acordo firmado entre os quatro partidos da aliança de centro-direita prevê que, em caso de vitória, o que tiver mais votos indicará o primeiro-ministro. Pelos números do Ispo, o Força Itália, de Berlusconi, teria 17%; a Liga, 13%; o FdI, 5%, e o Nós pela Itália-UDC, 2%. 

O nome de Tajani foi recebido com desconforto pelos parceiros do Força Itália, que cultivam um sentimento antieuropeu. Tajani fez carreira galgando a estrutura da União Europeia (UE), como comissário de Transportes e, depois, da Indústria. 

Criada em dezembro, a Liga é originária da Liga Norte, um movimento separatista lançado em 1991. Sua “versão repaginada” assumiu uma imagem nacional, que atrai votos até no sul, antes por ela menosprezado como região atrasada e preguiçosa, que o norte industrializado carregava nas costas.

Seu líder, Matteo Salvini, candidato a primeiro-ministro caso a Liga seja a mais votada, reagiu na sexta-feira com ironia à indicação: “Tenho uma visão mais clara da União Europeia. Respeito Tajani, mas espero que continue presidente do Parlamento, e Salvini seja o primeiro-ministro”. Giorgia Meloni, a líder do FdI, foi na mesma linha: “Respeito Tajani, mas preferiria alguém que saiba dar um murro mais forte na mesa na Europa”. 

Apesar da retórica, a Liga não incluiu em seu programa um referendo sobre a saída da Itália da zona do euro, posição clássica dos nacionalistas italianos, que consideram que o país, terceira maior economia da UE, a partir da saída da Grã-Bretanha, é prejudicado pela liderança alemã e francesa no bloco. 

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A escolha feita por Berlusconi representou um alívio para a UE e para os mercados. “Tajani empenhou-se em manter os vínculos da Itália com a UE, e em um certo sentido asseguraria maior continuidade do governo de Gentiloni do que a Liga ou o M5S”, disse ao Estado Marcello Messori, diretor da Escola Luiss de Política Econômica Europeia, de Roma. 

Mas não há motivos para festejar. A proposta de Berlusconi de introduzir um imposto único preocupa Messori, porque pode reduzir a arrecadação e elevar a dívida pública, já em 131% do PIB, além de aumentar a desigualdade.

Para se contrapor aos partidos tradicionais, o M5S rejeita alianças. Nestas eleições, seu candidato a premiê é o pragmático e moderado vice-presidente da Câmara, Luigi di Maio. “Mesmo que agora eles queiram formar coalizão, nenhum partido vai querer”, diz Renato Mannheimer, diretor do Ispo. 

Se ainda assim Mattarella os convocar para um governo de minoria, como eles insistem, suas propostas igualmente preocupam. O M5S também excluiu do seu programa a saída da zona do euro, mas promete, por exemplo, benefício de € 780 para 9 milhões de italianos. Para Messori, além de onerar as contas públicas, isso pode desestimular o trabalho. “Um programa de renda mínima precisa ser bem desenhado”, observa o economista. 

Protagonistas

Antonio Tajani

Ex-presidente do Parlamento Europeu, líder do Força Itália e o favorito de Berlusconi.

Matteo Salvini

Líder da Liga Norte, partido anti-imigração, concentra as propostas mais duras contra a chegada de refugiados.

Matteo Renzi

Ex-premiê de centro-esquerda, tenta voltar ao cargo após derrota no referendo constitucional de 2016.

Luigi di Maio

Com 31 anos, é o novo rosto do Movimento 5 Estrelas (M5S). Com críticas à UE, assumiu o lugar de Beppe Grillo, seu padrinho político.

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