EFE/Juan Ignacio Roncoroni
EFE/Juan Ignacio Roncoroni

Eleição legislativa de 2017 será segundo marco para presidente argentino

Futuro político de Macri, bem como possível volta de Cristina ao cenário, depende do desempenho do novo governo

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2016 | 03h00

BUENOS AIRES - A manutenção da estabilidade no primeiro ano de governo será importante para Mauricio Macri melhorar sua base de apoio no Congresso em outubro de 2017, quando haverá eleições parlamentares. Seu desempenho também influirá na conservação das alianças e no reagrupamento do peronismo para recuperar o poder em 2019.

Até a renovação do Parlamento, a coalizão Cambiemos, com 90 deputados, tende a contar com o apoio dos 37 liderados por Sergio Massa, peronista dissidente que ficou em terceiro na eleição. Esse reforço lhe permitirá bater a bancada kirchnerista, que tem 117 das 257 cadeiras.

Embora tenha criticado Macri e pedido seu recuo na nomeação por decreto dos dois juízes da Corte Suprema, Massa mostrou-se favorável às demais medidas, incluindo a intervenção federal na Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual (AFSCA), encarregada do cumprimento da Lei de Mídia. Até a semana passada, a instituição tinha no cargo o kirchnerista Martín Sabbatella, cujo mandato duraria até 2017. 

Macri sabe que esse apoio de Massa não durará até o fim do mandato se o peronista mantiver o plano de chegar à presidência. “Se Macri for bem, é possível que o grupo de Massa se integre ao governo. Mas, se for mal, ele tentará liderar o peronismo”, diz Carlos de Angelis, professor da Universidade de Buenos Aires (UBA). Para o desempenho de Macri ser considerado bom, segundo ele, seria necessário triunfar em três pilares: conter a inflação, avançar em segurança (o ponto que mais preocupa a população) e manter o câmbio sob controle. “O peronismo ainda deverá chegar dividido a essa eleição”, prevê.

Para o sociólogo Ricardo Rouvier, o movimento que governou a Argentina em 25 dos últimos 32 anos de democracia definirá se o kirchnerismo, que ocupou a Casa Rosada de 2003 a 2015, continuará no comando. “É um casamento que depende de renovação. Até agora, Cristina Kirchner é ainda a principal referência dessa união”, avalia Rouvier, que prevê um jogo duplo de Massa. “Terá relação com o governo, enquanto tenta aumentar seu poder.”

Segundo o consultor Raúl Aragón, o grupo de Massa seguirá, num primeiro momento, o anseio da sociedade, demonstrado pela vitória de Macri, de mais acordos e menos confrontos. “Se quiser ter chance de chegar à presidência em 2019, Massa precisará de uma vitória clara na eleição de 2017”.

Massa seria uma das opções para representar o peronismo em 2019, assim como o governador de Salta, Juan Manuel Urtubey. A candidata natural seria Cristina, mas os analistas preveem dificuldade para ela se livrar de acusações na Justiça contra sua família no caso Hotesur. A investigação por lavagem de dinheiro envolve um hotel de luxo no sul do país no qual diárias foram pagas por um empresário kichnerista sem que os quartos tenham sido ocupados. 

Segundo Aragón, outra razão para a dificuldade de regresso de Cristina, que deixou o poder com uma aprovação de 40%, seria seu confronto com líderes históricos do peronismo. “Ela ofendeu muitos dirigentes, para não dizer todos, sobretudo aqueles com poder direto sobre certos territórios”, disse Aragón.

Se quiser voltar ao cenário político antes das primárias de 2019, que definirão os postulantes à presidência, a opção mais provável para Cristina seria tornar-se senadora pela Província de Buenos Aires em 2017. “Isso vai depender de sua situação jurídica. Ela já não tem foro privilegiado e essa investigação pode complicar suas ambições”, afirma Aragón. “Se a coisa ficar muito ruim para Macri nos próximos anos, é provável um movimento pela volta de Cristina, mas haverá muita briga interna no peronismo. Alguns governadores tentarão tomar o lugar dela”, diz De Angelis, da UBA. 

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