Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Eleição local dá a Maduro tempo para ampliar ações contra crise econômica

Chavismo reduz pressão por referendo ao conquistar pelo menos 215 das 335 prefeituras e ampliar número total de votos em relação aos opositores

Roberto Lameirinhas, enviado especial a Caracas,

09 de dezembro de 2013 | 22h57

CARACAS - A estratégia chavista de responsabilizar "sabotadores" e "especuladores" pelos recentes problemas econômicos do governo surtiu o resultado esperado e o governo do presidente Nicolás Maduro, embora tenha amargado derrotas em algumas cidades simbólicas, pôde sair das urnas de domingo como vencedor. Os principais trunfos do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) estão no número de prefeituras conquistadas e na votação nacional.

Após as medidas de Maduro para tentar conter a inflação, que passa de 50% nos últimos 12 meses, frear a desvalorização da moeda no mercado negro e reduzir o crescente índice de desabastecimento, candidatos chavistas foram eleitos para pelo menos 215 das 335 prefeituras em disputa no domingo. A oposição tinha assegurado até ontem 54 municípios.

Além disso, o PSUV e seus aliados obtiveram 5.111.336 de votos, 49,24 %, no âmbito nacional - diante de 4.435.097 (42,72%) da opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD). Os demais votos se distribuíram entre agremiações menores não alinhadas com as duas forças principais. Em abril, ainda sob a comoção causada pela morte do líder Hugo Chávez, em 5 de março, Maduro venceu a eleição presidencial por diferença de 1,4%.

"Claro que temos de levar em conta quando um governo decide fazer com que os preços cobrados pelos comerciantes do país sejam justos", justificou ao Estado Pedro Henrique Silva, diante da sede do Conselho Comunal de Sabana Grande, área popular de Caracas. "Ele está enfrentando os especuladores capitalistas que querem explorar o povo", completou.

A oposição liderada pelo governador licenciado de Miranda, Henrique Capriles, também pode celebrar vitória em municípios-chave da geografia política venezuelana, incluindo quatro dos cinco que formam o Distrito Federal. Reelegeu também o prefeito da área metropolitana de Caracas, Antonio Ledezma, apesar de o chavismo ter apresentado um peso pesado da nova geração do movimento, Ernesto Villegas, conhecido por divulgar os boletins de saúde de Chávez. O cargo, a cereja do bolo das eleições de domingo, foi mantido por Ledezma graças a uma vantagem de 0,1% dos votos.

Os opositores venceram também em Barinas, reduto e região natal da família de Hugo Chávez, em outro triunfo recheado de simbolismo. Maduro atribuiu a derrota em Barinas a divisões internas do PSUV e pediu a "correção da rota" e o compromisso com a "unidade revolucionária", recomendada pelo próprio Chávez havia um ano, quando anunciou que retornaria a Cuba para tratar do câncer que o levaria à morte e nomeou o atual presidente seu herdeiro político.

"A verdade é que não se viu nem uma vitória espetacular do governo nem um triunfo da oposição no caráter plebiscitário que pretendia impor ao processo eleitoral", declarou o diretor do instituto de pesquisas Datanálisis, Luis Vicente León.

No discurso da vitória, já na madrugada de ontem, Maduro ironizou a oposição e disse que Capriles deveria "ter a dignidade de renunciar ao governo do Estado de Miranda". "O filhinho de papai, o ‘caprichito’, pediu licença do cargo para coordenar a campanha da direita. Com a derrota, deveria renunciar ao governo e à liderança de seu partido." "Ei, ‘caprichito’, aqui está seu plebiscito", gritava a multidão, interrompendo a fala de Maduro.

Capriles criticou o que qualificou de "oportunismo" do partido do governo e queixou-se da atuação parcializada do Conselho Nacional Eleitoral e das forças de ordem encarregadas de garantir a segurança - envolvidas na operação Plano República.

Capriles também advertiu que o resultado mostra a divisão do país. "Os eleitores disseram no domingo que a Venezuela não tem dono", afirmou. "Os venezuelanos não estão submetidos a um ou outro partido. E seguiremos lutando para frear a divisão do nosso povo."

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