EFE
EFE

Eleição local mede aprovação de Maduro, excêntrico até para aliados

Sucessor de Hugo Chávez alega ter visto imagem do líder bolivariano em obra do metrô, diz escutá-lo no canto dos pássaros, mudou o Natal para novembro e acredita que pode conter a crise econômica e controlar a inflação à base de decretos

Roberto Lameirinhas - ENVIADO ESPECIAL,

07 de dezembro de 2013 | 20h56

O líder sindicalista ungido por Hugo Chávez como seu sucessor político nunca teve, nem de longe, o mesmo carisma nem a mesma autoconfiança do presidente venezuelano morto de câncer em 5 de março. Desde que chegou ao poder, em abril, porém, Nicolás Maduro tem demonstrado um grau de histrionismo que vem surpreendendo até os eleitores chavistas.

Nos mais recentes episódios vinculados a seu lado místico, o homem encarregado de enfrentar uma das mais ameaçadoras crises econômicas do país nos últimos anos anunciou ter encontrado a "imagem" de Chávez numa rocha, durante obras do metrô em Caracas, e mudou a data do Natal para novembro.

"Como é possível confiar num presidente que fala com passarinhos e diz receber conselhos econômicos de um fantasma?", perguntou, durante a campanha para as eleições municipais deste domingo, o líder opositor Julio Borges. Explorando as dúvidas sobre a sanidade do presidente, a oposição pretende impor ao chavismo uma de suas mais significativas derrotas.

As eleições se desenrolam neste domingo, 8 de dezembro, mesma data decretada pelo governo como "Dia de Lealdade e Amor ao Supremo Comandante Hugo Chávez". Neste contexto, a votação se converte num plebiscito sobre a atuação de Maduro.

Uma derrota - ou mesmo uma vitória por margem estreita - deve ampliar o risco de que ele seja levado a um referendo revogatório, instrumento da Constituição venezuelana que permite a destituição de ocupantes de cargos eletivos após o cumprimento de metade do mandato.

Diante da crescente dificuldade econômica - com inflação anual superior a 50%, a moeda local derretendo em relação ao dólar, a grave crise de desabastecimento e a falta de investimento que causa de blecautes a falta de água -, o presidente acusa empresários e "agentes capitalistas" de sabotagem.

Munido de um instrumento legal que lhe permite governar por decreto, a Lei Habilitante, Maduro ampliou a lista de produtos com preços congelados e conclamou a população a fiscalizar empresários e resistir aos aumentos, numa versão bolivariana dos "fiscais do Sarney", do Plano Cruzado - a fracassada tentativa de 1986 de conter a hiperinflação brasileira.

Nicolás Maduro, apontam políticos e analistas do país, é na verdade produto da cautela de Chávez de não permitir a emergência de nenhuma figura carismática que pudesse colocar em dúvida seu papel de liderança no movimento bolivariano.

"Maduro sempre foi leal e dócil na medida suficiente para que não representasse um perigo político para Chávez", disse ao Estado o consultor político Mario Zamora. "Ele tinha sido um chanceler razoavelmente competente e, pelo menos até que o líder decidisse ungi-lo como herdeiro político, não integrava nenhuma das correntes importantes do chavista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), como os ligados aos militares ou aos ‘pragmáticos’, identificados ao que os venezuelanos passaram a chamar de ‘boliburguesia’."

Opção. A escolha de Chávez também se explica por ele considerar Maduro um negociador competente, capaz de atravessar o período de turbulência que se seguiria ao seu desaparecimento. "A última coisa que os militares desejariam, após a morte de Chávez, era dar um golpe de Estado, mas esta poderia ser uma medida inevitável diante da perda de seus privilégios", declarou, logo após a saída de cena do líder, o diretor do instituto de pesquisas venezuelano Datanálisis, Luis Vicente León. "Eles sempre deixaram claro que poderiam negociar - e Maduro é esse negociador necessário."

Por não compor nenhuma das facções internas, Maduro seria a figura chamada a conciliar e acalmar ambições. "Seu discurso, às vezes, é primitivo no uso de terminologias e ataques aos rivais, mas a verdade é que ele era um negociador mais aberto do que as outras opções que Chávez tinha sobre a mesa. Assumindo que (Diosdado) Cabello (presidente da Assembleia Nacional) é tido como militar intransigente e Elías Jaua (ex-vice-presidente e atual chanceler) é considerado um radical de esquerda com pouco carisma, a conclusão é óbvia: Maduro era o melhor que Chávez tinha à mão", afirma León.

Origens. Durante o período em que foi ministro de Relações Exteriores, Maduro, um grandalhão que foi líder do sindicato dos metroviários de Caracas, passou a emular Chávez no seu gestual e nas ações pouco comuns para personalidades públicas. Em 2009, pouco depois do golpe que removeu Manuel Zelaya do poder em Honduras, ele surgiu na fronteira do país com a Nicarágua, dirigindo o jipe com o qual procurava devolver o líder deposto ao seu país. Entre manifestantes e jornalistas que acompanhavam o ato, muitos demoraram a identificar o motorista do veículo como o chanceler venezuelano.

Durante o período em que Chávez esteve internado em Cuba, Maduro assumiu a tarefa de transmitir informações sobre o preocupante estado de saúde do líder, mas seus relatórios eram genéricos e tinham um tom quase messiânico.

A rápida ascensão de Maduro ao poder se consolidou há um ano, quando Chávez convocou uma rede nacional de rádio e TV para anunciar que retornaria a Cuba para nova cirurgia e deu a entender que sua situação de saúde era bem mais grave do que admitia nos meses anteriores.

"Se ocorrer algo, repito, que me incapacite de alguma maneira, Nicolás Maduro não só nesta situação deve concluir, como manda a Constituição, o mandato, mas minha opinião firme, plena como uma lua cheia, irrevogável, absoluta, total, é que - nesse cenário que obrigaria a convocar, como manda a Constituição, novas eleições presidenciais - vocês elejam a Nicolás Maduro como presidente da República Bolivariana da Venezuela". E acrescentou: "Eu lhes peço de coração. Ele é um dos líderes novos de maior capacidade para continuar, se eu não puder. Deus sabe o que faz."

Nessa noite, sentado à direita do comandante, estava Cabello, o oficial que participou com Chávez da tentativa de golpe de Estado de 4 de fevereiro de 1992 e o acompanhou em diversos postos, tanto no partido oficialista - primeiro Movimento Quinta República e agora PSUV - como em cargos governamentais de alto escalão.

Cabello é considerado um dos homens fortes da revolução bolivariana por sua liderança dentro do PSUV e - mais ainda - por seus laços estreitos com o meio militar. "Por isso, no imaginário especulativo do venezuelano, o camarada Diosdado Cabello se enquadrava melhor como possível sucessor. Mas a vontade do líder foi outra", diz o jornalista venezuelano Oscar Medina.

O que Chávez fez naquela noite de sábado foi revelar algo de que se esquivou durante muito tempo, fiel a seu estilo personalista, que o colocou sempre como centro e motor de seu afã de construir o "socialismo do século 21". Chávez nomeou Maduro o beneficiário de seu capital político, o responsável por continuar sua obra.

O estilo de Maduro se tornou mais claro logo depois. Ele falava a jornalistas de "longas conversas sobre temas econômicos" supostamente travadas com Chávez no leito de morte do líder bolivariano. Poucos acreditaram que elas realmente existiram.

Maduro foi o encarregado de anunciar a morte de Chávez, em 5 de março, e de coordenar as homenagens fúnebres. Durante os funerais, manobrou, sem sucesso, para sepultá-lo no Panteão dos Heróis, onde está Simón Bolívar, e ampliou o velório por dez dias.

Já em campanha, fez insinuações sobre a orientação sexual de seu adversário, Henrique Capriles, e dava a entender que recebia mensagens do espírito de Chávez por meio de sonhos ou do cantar de um passarinho.

Tudo o que sabemos sobre:
VenezuelaMaduro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.